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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

CAPELA DE NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO DAS FRONTEIRAS DA ESTÂNCIA DE HENRIQUE DIAS





A igreja de Nossa Senhora da Assunção fica situada na Rua das Fronteiras, no bairro da Boa Vista e possui um estilo barroco. Sua história remonta a mais de três séculos, aos tempos pós-invasão holandesa.

 No ano de 1630 todo o terreno onde está a igreja fazia parte de um grande sítio, cujo proprietário era um rico colono: João Velho Barreto. Lá se encontravam uma grande vivenda e algumas casas bem modestas, pertencentes aos moradores.

 Documentos históricos registram que, durante a invasão holandesa, o sítio foi ocupado por 180 homens, sob o comando do capitão Antônio Ribeiro de Lacerda. Essa ocupação durou bem pouco tempo e, em seguida, a localidade do posto do Passo do rio dos Afogados passou a ser defendida por Luís Barbalho Bezerra, junto com sua tropa de índios e colonos.

Ao oficia negro, Henrique Dias, notabilizado durante a Batalha dos Montes Guararapes e a sua tropa foi confiada a defesa contra os holandeses. Com uma boa posição estratégica Henrique Dias conseguiu causar uma série de derrotas aos flamengos.

Apesar de a ofensiva holandesa ter iniciado uma batalha com mais de dois mil homens, Henrique Dias e sua tropa reagiram de tal maneira que os holandeses perderam a batalha deixando 50 mortos no campo e mal conseguindo levar o alto contingente de feridos.

 Essa grandiosa vitória despertou o espírito religioso do herói da insurreição pernambucana que decidiu construir uma capelinha para Nossa Senhora da Assunção, a qual acreditava que o havia protegido naquele combate, enquanto esperava poder erguer, no final das lutas, um monumento maior em homenagem à Virgem.

Em recompensa aos seus inúmeros merecimentos heroicos, á Coroa doou a Henrique Dias as casas que pertenceram ao líder dos holandeses, além das Olarias de Gaspar Roque e todas as terras anexas a ela, junto ao rio Capibaribe até a ilha de Santo Antônio.

E, junto a esses bens, o rei D. João IV doou ainda a "a concessão de uma data de terras para fundação de um monumento cuja época e extensão nada se sabe". É nessa localidade, precisamente, das Fronteiras da Estância de Henrique Dias, que é erguida a capela de Nossa Senhora da Assunção. A Ermida foi erguida no ano de 1646. Era uma construção simples, de taipa.

Apesar de todos os bens recebidos Henrique Dias morreu pobre, no ano de 1662, tendo as despesas de seu funeral sido pagas pela Fazenda Real.
Atendendo a uma solicitação do Regimento Henrique Dias ou Regimento dos Henriques, em 1748 são concluídos os trabalhos de construção de uma nova igreja em substituição á capelinha de taipa. Era o cumprimento e uma promessa feita por Henrique Dias. No novo templo, durante décadas apenas pessoas negras podiam administrá-lo.

 O título de Imperial Capela foi concedido em 1859 quando da passagem do Imperador Pedro II pelo estado de Pernambuco.

No dia 19 de novembro de 1871 funda-se, no consistório da igreja, a Sociedade dos Henriques, cuja meta era a de manter viva a devoção a Nossa Senhora da Assunção e administrar o templo da Estância. O seu primeiro presidente foi Salvador Henrique de Albuquerque, um major reformado.

Desde então a capela passou por diversas administrações e, finalmente, já como patrimônio da Arquidiocese de Olinda e Recife, foi tombada como Patrimônio Nacional, pelo IPHAN, em 1949. 



A capela foi restaurada em 2007/2008, com  o patrocínio do BNDES e reaberta ao público em outubro de 2009, sob a responsabilidade do IDHeC.


No final de 2015 e começo de 2016 a igreja das Fronteiras passou por mais uma reforma. Foram dois meses de portas fechadas para a obra de restauro do altar mor e dos santos. Reabriu mais bela do que nunca, para celebrar o aniversário de 107 anos do nascimento de seu ilustre morador, Dom Helder Camara (Conf. http://institutodomhelder.blogspot.com.br/2016/03/os-107-anos-de-dom-helder-reabertura-da.html)



Atualmente está aberta à visitação, de segunda à sexta-feira, das 14h às 17h e também à realização de cerimônias religiosas como casamentos, batizados e Celebrações Eucarísticas.

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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

376º CARTA PÓS - CONCILIAR – A PRIMEIRA ESCRITA NA NOVA RESIDÊNCIA





Dom Helder
Após-Concílio

Recife, 14/15.3.68

376ª Circular*

Vigília da sexta-feira da segunda Semana da Quaresma

Vigília número um na Casa Nova

A querida Família Mecejanense

Pai, são tuas, inteiramente tuas as primícias de meu primeiro amanhecer (são 2 horas da manha) na Casa Nova. Tu sabes que sentimentos, e aspirações, e esperanças me trouxeram aqui. Como é difícil romper estruturas, sem ferir, nem entristecer ninguém! Tua mão me conduziu. Os obstáculos foram caindo. Sobretudo nos últimos, tua intervenção é visível e tangível. Daí a tranquilidade com que aqui estou.
*
Os repórteres farejaram a mudança (dia e noite, eles rondam os meus passos) e me surpreenderam na hora exata em que saltei de um táxi e entrei, oficialmente, na nova residência. Eram 19h do dia 14 de março, quarto aniversário do anúncio de minha vinda para aqui.
*
Vim só com o José33. Mas a casa já estava carinhosamente arrumada, com a colaboração inclusive das Irmãs de Caridade, da Escola de Enfermagem, que faz um todo com a Igreja das Fronteiras.
*
Fui direto a Igreja, saudar, no Santíssimo Sacramento, o Irmão com Quem somos um. Pedi que a moradia aqui correspondesse de todo aos planos do Pai.
*
As Irmãs vão querer, com certeza, que eu celebre em louvor da Fundadora Santa Luiza Marillac. Aproveito a Vigília para meditar, com vocês, o texto da Missa ferial34. Historia de José, do Egito35.
Mistério dos sonhos... Há alguns tão belos que parecem inventados e, então, dá vergonha de contar. O fato é que a explicação psicanalítica dos sonhos precisa ser completada. Há sonhos que são avisos. Há sonhos que são delicadeza de Deus para encorajar em instantes difíceis. Há sonhos proféticos. [fl. 2] Mistério da inveja fraterna. Como é perigosa a inveja! Como turva o olhar! Como leva a excessos terríveis, inacreditáveis... Caem e os irmãos de José que o digam!...

Rubem: mistério da bondade pusilânime. Evita a morte do irmão. Mas, sem coragem ou sem meios de enfrentar a cólera dos irmãos, sugere que José seja jogado na cisterna vazia, pensando em salvá-lo depois... Não vendo aceita a sua ideia, torna-se conivente de um mal menor: participa da venda de José...

Mistério da Providencia Divina que vela por seus eleitos. Mistério das prefigurações de Cristo.

Mistério da cegueira dos que tem interesses contrariados. Os príncipes dos sacerdotes e fariseus entenderam a parábola do pai de família que plantara uma vinha, rodeando-a com uma sebe, cavando um lugar e construindo uma torre...36 Entenderam muito bem. Nem tiveram que pedir esclarecimentos.
Mas ao invés de se converterem, de abrirem os olhos e o coração, rebelam-se e pensam em prender e matar o Mestre...
*
A oração sobre as oblatas lembra o mistério da Santa Missa que se estende o dia todo... O dia todo: ofertório, consagração, comunhão! E cântico sempre novo! Sem cansaço. Sem rotina. Transfigurando o quotidiano. Encorajando a vida. Tornando tudo fácil. Funcionando não só nos momentos agradáveis e simples, mas nas horas densas e difíceis de passar. Só a própria Missa nos permite agradecer Graça tão grande!
*
Acho tão bonito e tão justo dizer: Humilhai vossas cabeças diante de Deus! Por minha conta, tenho a confiança de corrigir e digo: “Humilhemos as cabeças diante de Deus37”.
*
Os jornais devem estar publicando, hoje, que eu irei a Câmara Municipal do Recife defender-me das acusações do Wandenkolk. Que há de [fl. 3] verdade nisto?

Durante semanas o vereador Wandenkolk Wanderley fez-me acusações, interpelações, insultos, injúrias, provocações... Timbrei em não dizer sequer o nome dele. Reconhecia o direito de crítica a quem quer que fosse...

Tratando-se de voz solitária e apaixonada, não queria entrar em polêmica, sobretudo porque o acusador é em extremo vulnerável...

Ele estava sendo insuflado. Acabou cansando a toda a gente, tão inábil e frágil é sua maneira de acusar. A Câmara acabou tomando posição: vários vereadores investiram contra ele, mas ao mesmo tempo, votaram uma proposta para que a tribuna da Câmara me fosse facultada para a hipótese em que eu desejasse repelir as acusações...
Ontem o convite me foi oficialmente transmitido por uma Comissão de Vereadores.

O Povo não gosta de ver acusação sem resposta. Já não era uma voz solitária e apaixonada. O caso repercutira na Câmara que, por maioria esmagadora, (praticamente Wandenkolk ficou só) tomou posição de confiança e até veneração (até de santo eu fui chamado).

Resolvi aceitar e ir. Apenas aguardo a indicação de data. Apanharei todas as acusações do Vereador. E as numerarei. Não temam: com a graça de Deus, não me afastarei da posição de Pastor. Resposta alta e firme de acusação em acusação.

Vai ser divertido. Os adversários da Igreja não sabem como lhe fazem a propaganda com medidas ininteligentes como esta. Vai ser um show preparado por eles.

Ainda ontem a revista Time, em entrevista, me dizia: a religião virou notícia, de ponta a ponta, da América Latina. Desde que seja realmente para glória de Deus e para fazer avançar as reformas, Deus seja louvado!

Bênçãos saudosas
do Dom


33 Seu Anjo da guarda.
34 Da sexta-feira da segunda semana da Quaresma.
35 Leitura da Missa do dia, tomada do Gen. 37, 6-22.
36 Parábola proclamada no Evangelho do dia, tomado de Mt. 21, 33-46.
37 Admoestação feita a assembleia, pelo diácono ou sacerdote, antes da oração final, depois da comunhão. Dom Helder corrige-lhe o tom imperativo.


* Esta Carta Circular faz parte da Coleção Obras Completas de Dom Helder Camara - Circulares Pós-Conciliares - Volume IV - Tomo II.
Este volume e toda a coleção completa encontram-se à venda no IDHeC - Instituto Dom Helder Camara. Clique aqui e obtenha mais informações.





terça-feira, 19 de setembro de 2017

354º CARTA PÓS CONCILIAR- A MUDANÇA DE ENDEREÇO



Após-Concílio

Recife, 28.1.68

354ª Circular *

4ª Dominga depois de Epifania

A querida Família Mecejanense

Permitam que recorde e resuma a novela de minha mudança:

• desde a chegada, em abril de 1964, o Palácio de Manguinhos deixou-me a impressão de Casa imensa, latifúndio de vez que se destinava apenas a residência do Arcebispo e de seu Auxiliar. A impressão se agravou, quando foi possível concretizar o velho plano do Auxiliar [D. José Larmatine], de residir, nos fundos do Palácio, com sua Mãezinha. Foi quando surgiu o slogan: é casa demais para um bispinho só;

• tentei, de maneiras várias, encher, um pouco, Manguinhos. Trouxe a Cúria para dentro de Casa; ocupei a antiga sede da Cúria ao lado do Palácio, com seis Organizações apostólicas que estavam sem sede; coloquei, dentro do próprio Palácio, a Operação Esperança e o Banco da Providencia;

• houve a experiência de abrir os jardins do Palácio às crianças e os salões à Noitadas;

• aos poucos, consegui livrar-me das duas Salas de Trono;

• durante a Cheia de 1966, Manguinhos viveu dias de plenitude. Mesmo em tempos comuns, o Povo o invade, sobretudo nas tardes de terças e de sextas-feiras;

• quando consegui abrir, escancarar os portões que dão acesso ao Palácio, houve queixa de que os jardins da Casa passaram a ser abrigo de maloqueiros, ladroes, desocupados e cenário de grossas imoralidades. Foi preciso, então, aceitar a figura incrível do Vigia.

• vivi entre o sofrimento de ver, mesmo em noites de chuva, u'a média de 15 Pobres [fl. 2] dormindo pelas varandas do Palácio (não pude repetir a façanha de faze-los entrar, dada a alegação de que receber 15 na terça--feira, seria contar na quarta-feira com 40 e na quinta-feira com 100) e o sobressalto de ver um Vigia, armado, disparar contra Cristo na pessoa do Pobre...

Quando se abriu o ano de 1968 era evidente a necessidade de que o novo ano não repetisse 1967. Era impossível ficar em meras declarações e em discursos.

Está provado que a circunstância de eu me deslocar das Áreas-desafio do Recife (que não ficam abandonadas) e partir para o meio rural (Cfr. Discurso de Carpina) já marca uma revolução. Os jornais de hoje publicam a notícia que um advogado, sedento de publicidade, vai denunciar-me, amanhã, perante a justiça. Se o Juiz aceitar a denúncia e eu for citado, será oportunidade esplêndida de chamar a atenção do País inteiro para as atrocidades que se passam no campo.

Impunha-se, a meu ver, o duplo sinal: morar em Casa pequena e pobre; dar destinação adequada a Manguinhos. Cinco ideias se sucederam (a meu ver caíram, porque não havia surgido o sopro de Deus):

• Equipe Central, dando unidade às Equipes externas de Seminaristas que abandonariam o Seminário Regional do Nordeste (imenso contrassinal, do qual procuraríamos livrar-nos, quanto antes). Houve o que houve.
No fim, as equipes se concentraram em Olinda e a Equipe Central passou para os altos da Casa do Povo (antigo Palácio Episcopal de Olinda);

• ITER (Instituto de Teologia do Recife): pensou-se em fazê-lo funcionar aqui, quando surgiu [a] dificuldade de ele funcionar, anexo a Universidade Católica. Desfez-se a dificuldade;

• Casa do Padre... Mas eles não sabem muito o que fazer da Casa; [fl. 3]

• hospedagem para Religiosas, necessitadas de aprimorar-se e cujas Congregações não tenham Casa no Recife;

• sede do Vicariato dos Setores Paroquiais, com serviços vários a serviço das Paróquias. Imaginei o Juvenato Dom Vital como cérebro e Manguinhos como coração da Arquidiocese. D. Lamartine teve receio de que a ideia prejudicasse o Arquidiocesano...

Vejam o que imaginei (por enquanto, tenho a aprovação do Pe. Marcelo [Carvalheira] e de D. José [D. José Larmatine] ):

Projeto para adequar ocupação do Palácio de Manguinhos

I) Considerações gerais

1. Oficialmente, a Casa será chamada Central de Promoção Humana, de acordo com as atividades que preencherão o térreo do Edifício.
O sobrado, no entanto, será entregue ao Clero da Arquidiocese, embora a Capela fique aberta a todos os Movimentos ligados a Manguinhos.

2. A Casa toda será administrada por uma Congregação Religiosa Feminina, responsável:

• diretamente, pela Portaria, Telefone e Capela;

• em articulação com o Banco da Providencia, pela manutenção da Casa.

3. A Central de Promoção Humana, sem prejuízo de iniciativas que
venham a tomar, abre-se com os seguintes movimentos:

• o Banco da Providência e a Operação Esperança;

• em articulação com o Banco: Cursos de Copa e Cozinha; de Faxineiros; de Corte e Costura; de Lavandaria; de Criação de Aves;

• em articulação com a Operação Esperança: LADOR; Comissão de Justiça e Paz; Central da Juventude; [fl. 4] Central dos Artistas;Central dos Técnicos;

4. As atividades do Sobrado ficam sob a organização e supervisão do Conselho Presbiteral.

[D. José [D. José Larmatine] apresentou sugestões quanto a divisão espacial. Propõe, inclusive, a ida da Cúria para o Secretariado Arquidiocesano, passando eu a ter gabinete de despacho também lá. As audiências públicas continuariam em Manguinhos, na Sala da frente, hoje ocupada pela Cúria]

II) Central de Promoção Humana

A) LADOR (Levantamento das Áreas-Desafio de Olinda e Recife) Equipe responsável: Engenheiro Manuel Figueira; Médico, Hélio Mendonça; Assistente Social, Dolores Coelho; universitário, Joao Marques.

Objetivos:

• ajudar as Paróquias a enfrentar suas respectivas Áreas-Desafios;
• equacionar o problema;
• levantar e entregar forças disponíveis.

B) Comissão Justiça e Paz

Representantes das Comunidades Evangélicas
Representantes da Federação Espírita
Representantes da Comunidade Israelita
Representantes das Áreas Agnósticas
Representantes da Igreja Católica

Objetivos:

• Captar injustiças sociais e humanas, dando-lhes o máximo de ressonância.
• Servir de eco a injustiças sociais mais gritantes de qualquer parte do País ou do Mundo.

Tentarei preparar instalação aproveitando a passagem do Cardeal [Maurice] Roy. Primeiro assunto queimante: sumiço, espancamento e assassinato de Trabalhadores Rurais...

O resto segue em outra Circular.
Bênçãos saudosas

do Dom


* Esta Carta Circular faz parte da Coleção Obras Completas de Dom Helder Camara - Circulares Pós-Conciliares - Volume IV - Tomo I.
Este volume e toda a coleção completa encontram-se à venda no IDHeC - Instituto Dom Helder Camara. Clique aqui e obtenha mais informações.


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A CASA DE DOM HELDER MOSTRADA POR DOM HELDER






segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A CASA DE DOM HELDER MOSTRADA POR DOM HELDER





Em 1986 em uma entrevista a um repórter de Tv Dom Helder apresenta a casa onde vivia já há 18 anos, mostrando cada cômodo e explicando a razão pela qual escolheu a sacristia das Fronteiras como sua residência em 1968.

As memórias guardadas nas paredes daquela pequena e acolhedora sacristia, transformada em "Palácio Episcopal" estão esperando por você durante a 11a Primavera dos Museus.

Visite o Memorial Dom Helder Camara e desperte também as suas memórias.

E não deixe de acompanhar o nosso blog durante 11a Primaverados Muses. Todos os dias, uma nova postagem.