MENU

sábado, 16 de junho de 2018

SÃO VICENTE NA ESPIRITUALIDADE DE DOM HELDER CAMARA



Este artigo nos foi enviado por nosso querido Pe. João Pubben. Foi escrito por padre Vinícius Augusto Ribeiro Teixeira, lazarista em Belo Horizonte, que já visitou o Memorial Dom Helder Camara.


O grande bispo brasileiro, Dom Helder Camara (1909-1999), místico e profeta de nosso tempo, dizia-se profundamente cativado por São Vicente de Paulo, encontrando nele uma luminosa inspiração para seu entranhado amor aos mais pobres. Vejamos alguns detalhes de sua relação com São Vicente.

Por volta dos seis anos, Helder Camara se tornou aspirante da Conferência Vicentina, entrando em contato, pela primeira vez, com a espiritualidade de São Vicente e com as histórias dos pobres, inclusive de pessoas que haviam perdido quase tudo na grande seca de 1915. Sua primeira missão foi visitar três famílias necessitadas de um lugar chamado Escadinha. No Seminário da Prainha, recebeu a esmerada formação oferecida pelos Padres Lazaristas de então, que recordavam constantemente os exemplos e pensamentos de São Vicente.

Na época em que se dedicou à Cruzada de São Sebastião, no Rio de Janeiro, Dom Helder foi chamado “São Vicente de Paulo das favelas”, porque havia organizado uma grande campanha caritativa em favor dos pobres, oferecendo-lhes a possibilidade de casa digna, trabalho, escola, espaço de lazer e de oração. Ricos colaboravam com generosidade para as obras assistenciais da Cruzada de São Sebastião. Cada vez mais, Dom Helder percebia que a pobreza da América Latina não se originava da escassez natural ou da incapacidade dos pobres, mas sim da injustiça estabelecida e aceita como natural. Começou, então, a dizer que, se São Vicente vivesse hoje, ele seria “apóstolo da justiça” e que a melhor maneira de honrá-lo era fazer o que ele faria: em seu tempo, Vicente fez o que lhe ditava sua consciência e seu amor aos pobres, “mas, estou convicto, se vivesse hoje, o apóstolo da caridade buscaria fazer a justiça”.

Dom Helder costumava conversar com o “querido modelo e mestre”, em suas vigílias noturnas de oração. Contava-lhe, por exemplo, o quanto era difícil ajudar pessoas boas e cristãs a superar preconceitos em relação aos pobres: “Os pobres já não cabem nos lugares previstos para eles. Dei um golpe de Estado: transformei em sala de espera um dos dois salões de honra, com trono e tudo. Houve um arrepio: ‘o tapete vai ficar imprestável!’. Mas, entre um tapete e um filho de Deus, nem vacilo. Está vendo, São Vicente!?... Não é que não sejam e desejem ser sinceramente cristãos. É a formação que receberam...”.

Dom Helder teve de fazer um grande esforço para convencer seus colaboradores de que ter um carro somente a serviço do arcebispo era uma tirania. Alegrou-se ao ver seu carro transformado em ambulância para servir os pobres ou para transportar as servidoras dos pobres. Sobre isso, comentou com seus amigos mais íntimos: “Claro que tudo nos arranca e arrancará sempre mais do comodismo, do egoísmo. Como somos burgueses, sem saber, sem sentir, sem querer!... É bom que nos sintamos medíocres, pequenos, longe dos santos. Mas quando se está no Nordeste, parece uma imposição da Graça, uma exigência do Espírito chegar a loucuras, facílimas de denunciar como demagogia, mas, na verdade, testemunho cristão que nossos irmãos sem fé têm o direto de exigir de nós... Não temam: Deus me protege e protegerá contra a amargura e qualquer sombra de desamor. Mas não posso impedir que Cristo chore sobre Recife e toda zona açucareira, e todo o meio rural da América Latina, e todo o Terceiro Mundo... São Vicente, em nossos dias, lutaria pelo desenvolvimento. Esta é a maneira mais larga e corajosa de amar o próximo em nosso século. Amar até a morte... da compreensão, da fama, do agrado”.

Por toda vida, Dom Helder se inspirou em São Vicente, buscando atualizar a espiritualidade do santo da caridade e da missão, no contexto da América Latina, vítima do subdesenvolvimento e da opressão, resultante da colonização interna e externa. Dizia: “Amo os pobres e Deus me deu a graça de ver neles o Cristo. Neste sentido, procuro ser um fiel servidor de São Vicente de Paulo. Trabalho com todas as minhas forças para extirpar a pobreza do mundo”. Por isso, sem nunca abandonar a assistência aos pobres, Dom Helder também lutou para superar as causas estruturais que geram e mantêm dois terços da humanidade na pobreza e miséria. Como havia feito no Rio de Janeiro, também em Recife, criou o Banco da Providência que funcionava no palácio destinado a ser residência do arcebispo. Fundou ainda a Operação Esperança, a Comissão Justiça e Paz e outras obras de promoção social.

Dom Helder dizia ter desejado pertencer à Congregação da Missão. Embora não o tenha feito oficialmente, seu coração e sua conduta sempre se mostraram profundamente vicentinos. Anos depois, para expressar sua admiração e estima ao ex-aluno, a Congregação lhe deu o título de Afiliado, com direito a seus bens espirituais. Ao receber este título do superior geral de então, a 8 de abril de 1987, Dom Helder teria dito alegremente a um de seus colaboradores mais próximos: “Agora, sim, sou Lazarista”.

Para terminar, o trecho de uma mensagem radiofônica de Dom Helder, levada ao ar por ocasião da Solenidade de São Vicente, 27 de setembro de 1975: “Deus concedeu a São Vicente de Paulo antenas para captar todos os grandes sofrimentos do seu século. Que sofrimento existiu em seu tempo e em sua França sem que ele o percebesse? E o Senhor lhe deu a graça de descobrir para cada sofrimento a providência adequada (...). Quantas e quantas vezes me pergunto: ´Que faria o querido São Vicente se voltasse à terra em nossos dias?’. Claro que ele já teria descoberto que a pobreza hoje não atinge apenas os indivíduos e as famílias. Ele constataria o escândalo de países numerosos, de continentes inteiros, mais do que em estado de pobreza, em estado de miséria. Com seu olhar arguto, ele descobriria que, se há países sempre mais ricos e países muito mais numerosos sempre mais pobres, na raiz desta distância que só faz crescer, há injustiças incríveis. E São Vicente denunciaria as injustiças, fosse quais fossem as consequências (...). Que o Espírito Divino sopre sobre todos os que lidamos com a pobreza, para que sejamos ao menos uma sombra da sombra do grande e querido São Vicente”.

Seja este texto uma fraterna homenagem ao Padre João Pubben, CM, por vários anos missionário em Recife, amigo fiel e estreito colaborar de Dom Helder Camara, hoje de volta à sua pátria holandesa.  


Pe. Vinícius Augusto Teixeira, C.M.

Fotos de julho de 1981, quando o Dom visitou o lugar onde São Vicente nasceu, Le Berceau, na França e celebrou a Eucaristia na casinha dele.





quarta-feira, 13 de junho de 2018

CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA VISITA O IDHeC



 Na última sexta-feira, 08 de junho, o IDHeC – Instituto Dom Helder Camara – recebeu a visita de representantes da Conferência Episcopal Italiana que estavam no Recife, participando de evento da Obra de Maria.

A comitiva que visitou a Casa Museu, a igreja das Fronteiras, a Exposição Permanente e o CEDHOC, onde se encontra o acervo de Dom Helder era composta pelos integrantes do CEI – Conselho Episcopal Italiano   irmã missionária Antonieta Papa, Leobardo di Mauro e Gemma Helfer e foram acompanhados por Gilberto Gomes Barbosa, president da Obra de Maria e por Francisco de Assis Perereira Fialho, professor da UERN – Universidade Estadual do Rio Grande do Norte.  



Guiados na visita pela historiadora Lucy Pina, foram acompanhados ainda pelos diretores do IDHeC Edelomar, Lucinha e Normândia e pelas conselheiras Ir. Vanda e Elizabeth.

Os visitantes fizeram uma doação em dinheiro para o IDHeC e a Obra de Maria comprou alguns livros de Dom Helder para presentea-los.


O “Chão de Dom Helder” desperta curiosidade antes de conhecê-lo e emoção quando as pessoas se deparam com a simplicidade com a qual o Dom vivia e a mística do local.

Agradecemos a visita e deixamos as portas abertas para que voltem e tragam mais pessoas para conhecer o Memorial Dom Helder Camara.


sexta-feira, 8 de junho de 2018

UM OLHAR SOBRE A CIDADE: FAZER COM O POVO



Quinta-feira, 23.9.1976

Meus queridos amigos

Os tempos passam, os séculos se sucedem e continuamos a ver pelas ruas mães acompanhadas de filhos menores, já capazes de andar, e mesmo as mães mais solícitas, continuam a esquecer que cada passada normal de adulto vale, pelo menos, meia dúzia de passos de crianças. Clássicos latinos já observaram que de vez em quando a criança precisa dar umas carreirinhas para alcançar as passadas maternas. Lembro-me da nossa atitude para com o povo. Muitos vencem o preconceito errado de que o povo não vê nada, não sabe nada e é incapaz de qualquer planejamento, por mais simples que seja. Mas na hora de trabalhar com o povo e não para o povo, se esquecem de que o povo tem experiência de vida, em geral, muito maior do que a nossa, mas não teve, não pode ter, os anos de estudos e de leituras que nós temos.

Começam a dar passadas tão largas que obrigam o povo a dar carreirinhas para acompanhar-nos. Quantas vezes, cedemos a uma tentação muito grave e muito séria. Com a alegação de que não há tempo a perder, sabemos que nós sabemos fazer, sozinhos, mais depressa e com mais segurança e perfeição, achamos mais fácil e melhor fazer sozinhos do que esperar que o povo faça. Muita coisa o povo sabe fazer melhor que nós.

O que depender de livros, de estudo, claro que quem pode ter o privilégio de anos de estudos e leituras vai fazer melhor e com mais rapidez. Se não tivermos a inteligência e a coragem de esperar que o povo tente, que o povo faça, mesmo que a princípio demore mais e faça e não apenas para o povo, com defeitos, se não tivermos a decisão de verdadeiramente trabalhar com o povo, não teremos a alegria de ver o povo crescer! A tentação de quem tem dinheiro é tudo querer resolver na base de dinheiro. Assim, o povo jamais vai descobrir que riqueza, a maior de todas, maior que qualquer dinheiro nos bancos, é o povo se unir para fazer o bem.


Cada um, isolado, pode muito pouco. Praticamente não pode nada. Não vale nada. O povo junto para enfrentar construtivamente os problemas da comunidade é a riqueza autêntica das autênticas democracias. Enquanto o mundo inteiro, os governos, não acreditarem na capacidade do povo e tudo planejarem nos gabinetes, e tudo decidirem com técnicos e supertécnicos, o povo ficará marginalizado. Mas os governos serão os maiores prejudicados. Tudo que é resolvido para o povo, sem o povo, é artificial, não funciona... Quando aprenderemos a acertar o passo, quando aprenderemos a andar juntos?


quarta-feira, 6 de junho de 2018

UM OLHAR SOBRE A CIDADE - ATENÇÃO COM A AMAZONIA


Quinta-feira, 10.7.1980

Meus queridos amigos

É extraordinário que o Santo Padre João Paulo II, depois de uma viagem pra lá de cansativa, tenha feito questão de ir a Manaus. Claro que não se trata de simples curiosidade de ver a Amazônia, a sua floresta, e suas aves e suas flores. O Papa que, em cada cidade quis ir ao encontro de um problema típico da área, na Amazônia quis ter contato com o que resta dos nossos índios. 

O índio tem, em face da natureza, uma posição muito diferente da nossa. Nós estamos convictos de que temos o direito e, praticamente, o dever de dominar a natureza e completar a criação. É terrível o que temos feito na linha de dominar a natureza. Nós a esmagamos, a destruímos e levamos à condições incríveis a poluição. 

É de cortar o coração o balanço das florestas destruídas, das riquezas minerais dilapidadas, dos rios, lagos e mares poluídos a ponto de ser impossível ambiente para peixes! 

O índio em lugar de dominar a natureza e destruí-la prefere conviver com ela. Claro que ele come frutas e animais, mas tudo se passa sem desperdício, sem esbanjamento, na medida exata das necessidades de alimentação. Amando a natureza, gostando de conviver com ela e tendo, de outra parte, necessidade de liberdade, o índio não se contenta e não se pode contentar, como nós nos contentamos, com uma casa pequena e, quando muito, um pequeno terreno. O índio precisa de espaço para correr, para respirar, para sentir-se livre, para irmanar-se com a natureza. Claro que nem mesmo os terrenos chamados reduções — reservados para eles — os índios vão poder guardar. Hoje qualquer pedaço de terra, vale mais do que ouro — vale sangue.

Quem tem seus projetos de crescimento, por que irá admitir que os índios guardem um espaço relativamente amplo e relativamente não aproveitável, segundo nossa visão de progresso? E aí estão, sempre mais numerosos e sangrentos, os choques com os índios. Ninguém se lembra de que quando chegaram aqui, com Pedro Álvares Cabral, os chamados descobridores, o Brasil estava mais que descoberto. 

Comparados os índios de hoje com os que haviam na chamada descoberta, é mais do que claro que eles estão sendo extintos. Compreendo, Santo Padre, o vosso desejo de ir a Manaus e de falar sobre os índios. Sois pastor universal; tendes que pensar em todos os filhos, mas, sobretudo, nos mais necessitados e sofredores. Acertastes de cheio; aqui como em toda parte, se os índios não forem socorridos  com inteligência, amor e espírito de fé, acabarão sendo extintos.