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quarta-feira, 3 de junho de 2020

OS PAPAS E O SONHO DE MARTIN LUTHER KING*

Protestos contra o racismo com a foto de Martin Luther King, Los Angeles, 2 de junho de 2020


 De Paulo VI ao Papa Francisco, o "sonho" de plenos direitos para a comunidade afro-americana nos Estados Unidos encontrou o apoio apaixonado dos Pontífices que indicam Martin Luther King como um exemplo a seguir na batalha não violenta pela igualdade

Alessandro Gisotti

A trágica morte de George Floyd mostrou dramaticamente que o sonho de Martin Luther King ainda está longe de se tornar realidade. No entanto, o histórico discurso “I have a dream”, proferido pelo líder do movimento de direitos civis em 28 de agosto de 57 anos atrás, continua a ressoar, ainda nestes dias, nos apelos de todos os que exigem justiça e dignidade para a comunidade afro-americana e com ela para todas as minorias de todos os tempos.

Esse "sonho", enraizado no Evangelho e na força libertadora do amor de Deus, encontrou nos Papas que se sucederam grandes aliados, a começar por São Paulo VI que recebeu Luther King no Vaticano em 18 de setembro de 1964 e o encorajou a continuar sua luta pacífica contra a discriminação racial. Quatro anos depois, Paulo VI recebeu com consternação a notícia da morte do pastor batista, Martin Luther King, em 4 de abril de 1968 em Memphis, Tennessee.

No domingo de Ramos, de três dias depois, o Papa Paulo VI recordou comovido a figura do Prêmio Nobel da Paz com palavras de extraordinária atualidade. O Papa rezava para que este crime possa "assumir o valor de sacrifício". "Que não se aprofunde o ódio, nem a vingança, nem um novo abismo entre cidadãos da mesma grande e nobre terra - adverte - mas que se imponha um novo propósito comum de perdão, de paz, de reconciliação na igualdade de direitos livres e justos às injustas discriminações e lutas presentes". Nossa dor se torna maior e mais temerosa por causa das reações violentas e desordenadas que o triste fato provocou. Ao mesmo tempo a nossa esperança cresce quando vemos que de toda parte responsável e do coração do povo saudável cresce o desejo e o compromisso de tirar da morte iníqua de Martin Luther King uma efetiva superação das lutas raciais e estabelecer leis e métodos de convivência mais conformes com a civilização moderna e a fraternidade cristã".

Vinte anos depois, em 12 de setembro de 1987, outro Papa Santo relembra o sonho do líder afro-americano. São João Paulo II estava em Nova Orleans, onde encontrou a Comunidade Católica Negra da cidade. Karol Wojtyla lembrou do longo e difícil caminho da comunidade afro-americana para superar a injustiça e se libertar do peso da opressão. “Nas horas mais difíceis de sua luta pelos direitos civis em meio à discriminação e opressão", enfatizou, "o próprio Deus tem guiado seus passos no caminho da paz. Diante da história, a resposta da não-violência eleva-se na memória desta nação como um monumento que honra a comunidade negra dos Estados Unidos". João Paulo II fala do "papel providencial" desempenhado por Martin Luther King "ao contribuir para a justa melhoria da condição dos negros americanos, e como consequência para a melhoria da própria sociedade americana". Como Paulo VI, encontra uma particular harmonia com a visão cristã da fraternidade humana encarnada pelo pastor da Atlanta que acreditou, até ao sacrifício extremo, na ação libertadora da fé em Cristo.

Esta visão é também referida por Bento XVI que, na cerimônia de acolhida em Washington, em 16 de abril de 2008, sublinhou que a fé em Deus tem sido "uma inspiração constante e uma força motriz" na luta liderada por Martin Luther King "contra a escravidão e no movimento pelos direitos civis". Palavras reforçadas dois dias depois no encontro do Papa Ratzinger com a filha do Reverendo, Bernice Albertine, em uma celebração ecumênica em Nova York. Tinha passado sete anos: pela primeira vez na história, um Pontífice se dirige ao Congresso dos Estados Unidos.

Em 25 de setembro de 2015, na sede do mesmo Congresso estadunidense, o Papa Francisco fez um discurso sobre o espírito dos Estados Unidos observando que “uma nação pode ser considerada grande, quando (…) promove uma cultura que permita às pessoas ‘sonhar’ com plenos direitos para todos os seus irmãos e irmãs, como procurou fazer Martin Luther King”. Para o Papa, aquele “sonho continua a inspirar-nos”, porque, “desperta o que há de mais profundo e verdadeiro na vida das pessoas”. E como em muitas outras ocasiões, faz questão de destacar que este gênero de sonhos “levam à ação, à participação, ao compromisso”.

Francisco como seu predecessor João Paulo II também encontra a filha de Martin Luther King, que é uma ativista, como seu pai, pelos direitos civis. Desta vez o encontro com Bernice Albertine foi no Vaticano, em 12 de março de 2018. A audiência foi privada, mas seu significado foi muito grande porque ocorreu três semanas depois do 50º aniversário da morte de Martin Luther King. Para o Papa, como escreveu na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2017, Martin Luther King conseguiu sucessos contra a discriminação racial que “jamais serão esquecidos”.

No entanto, a forma como estes foram alcançados não conta menos do que os próprios resultados. "A não-violência", escreve Francisco, "praticada com determinação e coerência produziu resultados impressionantes". Pelo contrário, como afirmou na audiência geral desta quarta-feira (03/06) dirigindo seu pensamento aos acontecimentos nos Estados Unidos, “nada se ganha com a violência e muito se perde”.

Postado no site VATICAN NEWS - https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-06/papas-martin-luther-king-estados-unidos.html


quarta-feira, 27 de maio de 2020

MORTE DE PADRE HENRIQUE, UMA HISTÓRIA QUE NÃO PODE SER ESQUECIDA, COMPLETA 51 ANOS


 

 

Antônio Henrique Pereira da Silva Neto tinha apenas 28 anos de idade quando foi sequestrado, torturado e assassinado na cidade do Recife em 27 de maio de 1969. Jovem, poliglota e ordenado padre havia três anos e cinco meses, ele era auxiliar do então arcebispo dom Helder Camara (1909-1999) na Arquidiocese de Olinda e Recife. A morte do padre Henrique completa 51 anos este mês e por 45 anos foi tratada como crime comum pela polícia. Só em 2014, a Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Camara conseguiu provar que o crime teve motivação política, com o envolvimento de agentes do Estado e civis integrantes da extrema direita pernambucana, como consta em relatório elaborado e divulgado pela equipe que participou do trabalho.

Os documentos reunidos pela Comissão da Verdade, que derrubam a tese do crime comum, como atestou a polícia à época, foram digitalizados pela Companhia Editora de Pernambuco e estão disponíveis para leitura no Acervo Cepe (www.acervocepe.com.br), gratuitamente, há cinco anos.

No portal há duas seções exclusivas sobre a morte do padre Henrique. Uma delas traz o relatório oficial do assassinato, produzido pela Comissão da Verdade, com 117 imagens, que também contém relatório da Comissão Judiciária de Inquérito criada pelo governo do Estado para apurar o crime, transcrição de escutas telefônicas e documentos confidenciais do Serviço Nacional de Informações (SNI).

A segunda seção preserva o prontuário do padre Henrique, composto de recortes de jornais, correspondências, panfletos, relatórios, declarações, entre outros. “Temos 12 tipos de documentos e aproximadamente 300 imagens no prontuário”, informa o superintendente de Digitalização, Gestão e Guarda de Documentos da Cepe, Igor Burgos. Também estão disponíveis nessas seções fotografias do religioso e registros da missa de corpo presente e do cortejo que acompanhou o caixão da Igreja do Espinheiro (Zona Norte) ao Cemitério da Várzea (Zona Oeste), com a participação de padres e estudantes.

“Um ano depois do crime, em junho de 1970, o SNI concluiu o que de fato tinha acontecido, que havia um delegado de polícia, dois  investigadores e um carro da Secretaria de Segurança Pública envolvidos na morte do padre”, destaca o presidente da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, Antônio Carlos Maranhão de Aguiar. O relatório com essa informação, diz ele, foi enviado ao Ministério da Justiça, com um alerta para o escândalo que seria provocado no Brasil e no mundo caso a verdade fosse divulgada. “Difamaram padre Henrique, difamaram dom Helder e botaram uma pedra em cima do assunto. Tudo isso foi descoberto pela Comissão da Verdade. Tudo isso está no relatório à disposição do público. É uma verdade documental, não é opinião”, sublinha.

O trabalho da Comissão da Verdade, acrescenta Antônio Carlos Maranhão, esclareceu para o mundo os acontecimentos que levaram ao sequestro e assassinato do sacerdote num regime de exceção. “Depois de 45 anos, descobriu-se que os agentes que se apresentavam à sociedade como defensores da democracia ocidental e cristã, defensores da igreja tradicional e contra a infiltração comunista na igreja eram canalhas e bandidos. Daí a  importância de manter acesa essa história, para mostrar aos jovens o que se faz por baixo de um tapete bonito. Não se sepulta uma história como essa, ela serve para prevenir e não deixar que um messias retorne dizendo-se salvador da Pátria, com ideias geralmente genocidas, geralmente assassinas, geralmente perversas”, afirma.

Para Antônio Carlos Maranhão, a escolha do sacerdote, que também atuava como professor em duas escolas particulares (Vera Cruz para meninas e Marista para meninos) e no Colégio Municipal do Recife não foi aleatória. “Padre Henrique não era um padre qualquer. Logo após ser ordenado por dom Helder Camara, ele assumiu a Pastoral da Juventude da Arquidiocese, tinha estudado nos Estados Unidos, era poliglota com experiência internacional e, como professor, tinha acesso privilegiado a jovens de classe média e alta do Recife”, observa. “Em 1968, quando foi baixado o mais sanguinário dos atos institucionais, o AI-5, padre Henrique era considerado um subversivo porque fazia com os jovens um trabalho de esclarecimento e evangelização seguindo aquilo que dom Helder pregava: um mundo onde a paz fosse fruto da justiça. Pode ser até que alguns pais mais conservadores tenham se sentido incomodados com ação dele. O fato é que ele passou a ser perseguido com a pecha de comunista e foi sequestrado quando saía de uma das reuniões com pais e alunos. São essas coisas que estão começando a voltar, hoje, como um pesadelo”, alerta.

Criada em 2012, a Comissão Estadual da Verdade ficou em atividade até meados de 2019. A investigação do Caso Padre Henrique, um dos primeiros com relatoria concluída, demorou um ano e meio. “É um trabalho relevante para a história de Pernambuco, Estado que sempre se destacou com uma participação política muito proativa no cenário nacional e um dos que mais resistiu à ditadura militar que se instalou após o golpe de 1964”, declara o jurista Henrique Mariano. Secretário-geral da Comissão da Verdade Dom Helder Camara e relator do Caso Padre Henrique, ele disse que o objetivo desse trabalho era fazer um esclarecimento histórico, sem perseguições e sem julgamento.

“A história verdadeira e completa do assassinato do padre Henrique, um jovem que desenvolvia um trabalho de inclusão social com toxicômanos, não tinha sido contada ainda”, diz Henrique Mariano, ao destacar a importância do resgate feito pela Comissão. “O inquérito policial concluiu que era um crime comum, sem vinculação ao regime político vigente na época e trouxemos provas documentais de que se trata de um crime eminentemente político, a despeito de o padre não ter participação política partidária”, relata. “Matar o padre era atingir dom Helder e o clero pernambucano, a Comissão da Verdade conta a história como ela aconteceu e deixa esse legado para as gerações futuras. Hoje, mais do que nunca, quando até jovens pedem a volta de uma intervenção militar, é preciso tocar nesse assunto. O AI-5 foi o maior golpe dado na República Federativa do Brasil, com demissão de professores, prisão de funcionários, retirada de estudantes de universidades. Quem defende a volta desse regime ignora a história”, alerta o jurista.

Padre Henrique, sacerdote que marcou sua trajetória na igreja pelo trabalho de acompanhamento da juventude no Recife, faria 80 anos em outubro de 2020. “Ele dedicou a vida ao trabalho com os jovens, não era tão comprometido com questões políticas e por isso o assassinato chocou a todos. Aquilo que aconteceu era para ferir dom Helder”, reforça o arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido. “Eu não era próximo do padre Henrique, mas tem um episódio que nunca esqueço: a primeira vez que recebi a hóstia na mão, quando o Concílio Vaticano II liberou essa forma de comungar, ela foi entregue por padre Henrique”, recorda o arcebispo. Os restos mortais do sacerdote foram transferidos do Cemitério da Várzea para a Igreja da Sé, em Olinda.

Há, no Acervo Cepe, cerca de 270 mil documentos da Comissão Estadual da Verdade, informa Igor Burgos. “Iniciamos a digitalização em agosto de 2013 e inauguramos o espaço no portal em outubro de 2014. Ao todo, são 18 seções que têm documentos administrativos, atas de reuniões, relatórios e prontuários de Miguel Arraes (1916-2005), dom Helder Camara e padre Henrique. A Comissão foi criada para tornar público e esclarecer violações praticadas pela ditadura em Pernambuco”, afirma Igor Burgos.

 

·        Postado no portal da Cepe:

https://www.cepe.com.br/noticias/morte-de-padre-henrique--uma-historia-que-nao-pode-ser-esquecida--completa-51-anos?fbclid=IwAR3IsEmzxpCzw1cNS1zPwdT2-USXYKzbBjAX2qbVGoK6wa38UUL0-BV6noE


terça-feira, 26 de maio de 2020

SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS – GENTILEZA GERA GENTILEZA


 

Começou a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC). Este ano celebrada de 24 a 31 de maio, o tema escolhido é a inspiração bíblica contida nos Atos dos Apóstolos 28.2: “Eles nos demonstraram uma benevolência fora do comum”. E o lema é a expressão que se popularizou no Brasil: “Gentileza gera gentileza!”.

A frase é inspirada no Profeta Gentileza, que morava nas ruas do Rio de Janeiro e escrevia poesias nas paredes dos viadutos da Av. Brasil.

BRASIL


No Brasil, a celebração de abertura da Semana de Oração pela Unidade Cristã aconteceu ontem.  dia 25 de maio, às 21h, e foi transmitida pelas redes sociais da CNBB/cnbbnacional e do Conic/conselhonacionaldeIgrejas.

Em função da pandemia do novo Coronavírus, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) informou que as mudanças foram necessárias para que todos e todas celebrem a unidade com segurança. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) integra o Conic por meio de sua Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso.

ARQUIDIOCESE


Na Arquidiocese de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido vive a Semana da Oração pela Unidade dos Cristãos participando de uma live com representantes de diferentes igrejas cristãs nesta quarta-feira, 27 de maio, às 18 horas. A live pode ser acompanhada nas redes sociais da Arquidiocese. Dom Fernando é o bispo referencial da CNBB NE2 para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso.



 VATICANO

O Papa Francisco abriu a Semana com uma carta ao presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, cardeal Kurt Koch, recordando os 25 anos da publicação da Carta Encíclica “Ut unum sint” de São João Paulo II. Francisco lembrou o contexto da época: com o olhar voltado para o horizonte do Jubileu do Ano 2000, o Papa polonês queria que a Igreja mantivesse bem presente a oração de seu Mestre e Senhor: “Que todos sejam um”.

“Por isso, escreveu esta Encíclica, que confirmou de modo irreversível o empenho ecumênico da Igreja Católica”, ressalta Francisco. Publicando o texto na Solenidade da Ascensão do Senhor, João Paulo II o colocou sob o signo do Espírito Santo, artífice da unidade na diversidade, princípio da unidade da Igreja.

 

Fonte: portal a AOR - https://www.arquidioceseolindarecife.org/comeca-a-semana-de-oracao-pela-unidade-dos-cristaos/