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domingo, 5 de abril de 2015

SOFRIMENTOS DOS IRMÃOS

"Quando Maria chegou ao lugar onde Jesus se encontrava, prostrou-se a seus pés ao vê-lo, e lhe disse: ‘Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!’. Ao vê-la chorar, e chorarem também os judeus que a acompanhavam, perturbou-se de espírito e comoveu-se. E perguntou: ‘Onde o sepultastes?’ Eles lhe responderam: ‘Senhor, vem e vê!’ Jesus chorou. Os judeus comentaram: ‘Vede quanto ele o amava!’" (João 11, 21.33-34).
Agrada-me saber que o próprio Cristo se perturbou, e até chorou. Pois todos nós devemos participar verdadeiramente dos sofrimentos e das alegrias do próximo, do nosso irmão.
Lembro-me do caso de um jovem cuja vida estava chegando ao fim. Era muito comovedor, e eu me achava ao lado dele, com sua família. O rapaz me agarrava as mãos e dizia: "Meu Pai, se o Senhor quiser, a morte não me levará agora... Pois Deus não disse que a fé pode fazer o impossível? Sei que basta um pouco de fé para fazer com que as montanhas tombem no mar. O Senhor tem muita fé... Ajude-me, por Deus! Diga-me que saia da cama!..."
Pensei comigo: ele tem razão...Se, com toda a minha fé, eu lhe ordenasse sair da cama, ele se poria de pé, não por mim, mas em nome de Cristo, e recuperaria a saúde. Mas, pensei também, o Senhor bem sabe que minha humildade não resistiria a tanto... Ah, como somos fracos, quanto pode crescer a nossa fé, estender-se, tornar-se mais forte do que o nosso raciocínio... Tudo o que fiz foi permanecer ao lado dele, sem dizer palavra... A tuberculose pode levar em certos casos, a uma agonia delirante. O moribundo estava agitado, angustiado. Preferi deixar que o Senhor lhe falasse diretamente ao coração.
Quando, por fim, a morte o colheu, eu disse à família: "Agora já posso falar. Orei em silêncio todo o tempo, mas posso dizer a vocês que não considerem a morte como vencedora, esta manhã. Lembro-me do que André Malraux disse ao General de Gaulle: ‘Eis a morte. É sempre ela que acaba vencendo!’”. Não concordo; ele estava enganado. Tenho no peito a profunda convicção de que está diante de nós o corpo de seu filho, de nosso irmão. Seu espírito já está com o Senhor. E até mesmo este corpo, que em breve conduziremos ao cemitério, irá ressurgir. Nós iremos encontrá-lo novamente, pois a morte não tem a palavra final. O Cristo ressuscitou, nós ressuscitaremos também, posso garantir isso a vocês. Faço questão de confessar-lhes, porém, que ao ser solicitado a operar um milagre, mesmo sabendo que seria o Cristo a fazê-lo se eu lhe pedisse com toda a minha fé, não tive coragem de pedi-lo.. Eu não quis por à prova a minha humildade. Tenho de confessar-lhes isso.."
(Do livro "O Evangelho com Dom Helder")


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