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sábado, 4 de abril de 2015

A COLHEITA É FARTA MAS POUCOS SÃO OS TRABALHADORES

"A colheita é farta, mas pouco numerosos são os trabalhadores; pedi ao Senhor, portanto, que envie trabalhadores, para a sua colheita" (Mateust 9, 37-38).
Roger Bourgeon pergunta - “Nestes tempos de hoje, quando a Igreja se ressente da falta de vocações, tais palavras não lhe parecem de notável oportunidade?”
Dom Helder - Vou lhe dizer como vejo o problema das vocações no Brasil e na América Latina como um todo. Não falarei de outros países, de outros continentes.
Tivemos durante anos a experiência de exacerbado clericalismo. Ao longo dos séculos, como sabemos, os padres eram requeridos para tudo, em toda parte. Mesmo quando se pretendia apelar ao concurso dos leigos, era sempre aos padres que cabiam as responsabilidades e as decisões. Era axiomático: sem padres, não há Igreja.
Hoje, o Vaticano II nos ajudou a aceitar, a reconhecer e a compreender o papel e a missão que os leigos podem desempenhar. Consequentemente, se entregamos de fato aos leigos tudo o que não seja específico da função sacerdotal, se os vemos assumir com confiança e alegria as tarefas que lhe sejam confiadas, posso assegurar-lhe: com número bem menor de padres, a Igreja poderá fazer colheitas bem fartas.
Além disso, quando vemos padres que não vivem a se lastimar, nem se mostram frustrados e tristes, mas contentes de saber que a vida é um dom divino e o sacerdócio implica uma bela forma de nos darmos a Deus dando-nos aos outros, posso garantir que as vocações logo se manifestam.
Cabe-nos, hoje, considerar a Igreja em seus aspectos globais. Ela não é somente o Papa, ou o Papa e seus bispos, ou o Papa, os bispos e os padres, ou, ainda, o Papa, os bispos, os padres e as religiosas. Os leigos, eles também, são a Igreja. Têm sua missão a cumprir: uma missão bem definida, insubstituível, nem ocasional, nem temporária. Não se trata de cumpri-la porque haja poucos padres, ou enquanto se espera que os haja de novo em número adequado. Nada disso!
 Sei que não é fácil, mas precisamos aprender bem a dividir responsabilidades. Particularmente nós, os bispos e mesmo os curas que, tendo conhecido o tempo dos reis absolutos, éramos como que pequenos papas.... Também não é fácil manter o verdadeiro diálogo, mas é importante constatar que sempre saímos enriquecidos de uma conversa com quem não seja totalmente de acordo conosco...
É evidente que eu faltaria com a verdade se dissesse que gosto de ser contestado com respeito a tudo que diga: é difícil supor que jamais tenhamos pelo menos um pouco de razão... Mas também não me agrada encontrar o tempo todo pessoas que concordem cem por cento comigo. Para ser franco, às vezes nem eu próprio estou cem por cento de acordo com o que diga ou faça.... Frequentemente entro em discussões comigo mesmo!
(Do livro “O Evangelho com Dom Helder”)


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