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domingo, 27 de setembro de 2015

O DOM E EU: DOM HELDER CAMARA E OS LAZARISTAS

Hoje, 27 de setembro, é o dia de São Vicente de Paulo. O nosso amigo João Pubben, nos envia, diretamente da Holanda, este texto, que, ao lado de São Francisco, São Vicente era um dos grandes santos para Dom Helder.

31.12.1998,sacristia da Igreja do Espinheiro (antes da Missa do último dia do ano)




Desenho de Paulo Andrade, de Água Fria, em 1981,
por motivo dos 50 anos de padre (jubileu áureo!) do Dom.
No dia 9 de setembro de 1992 Dom Helder escreveu: “O que eu sei e o que faço, devo, em grande parte, aos Padres da Missão. Daí a amizade com que acompanho meus Mestres de ontem e de sempre. O que eles dizem e fazem têm raízes na , na oração, sobretudo na Santa Missa. Que Deus abençoe, sempre mais, os Filhos e as Filhas de São Vicente”.

O Seminário da Prainha em Fortaleza estava sob os cuidados dos Lazaristas quando Helder, em 1923, entrou. Padre Guilherme Vaessen era, desde 1914, superior, permanecendo na função até 1927, quando o Padre Tobias Dequidt assumiu o posto. Este, então, era reitor em 15 de agosto de 1931, dia da ordenação sacerdotal de Helder e de seus colegas de turma Francisco José de Oliveira, Domingos Rodrigues de Vasconcelos, Demétriu Eliseu de Lima, Antônio de Oliveira Nepomuceno, José Gaspar de Oliveira, Luiz Braga Rocha, Pedro Alves Ferreira e Antônio Bezerra de Menezes.

O Dom falava, bem idoso, ainda sobre seu tempo de seminário e lembrava com respeito seus professores. Lugar privilegiado ocupava Padre Pedro Zingerlé. Este mudou-se da França para o Brasil em 1902 e viveu no Seminário da Prainha até 1968, vindo a falecer na idade de 93 anos. Zelava pelaObra das Vocaçõesque financiou em parte a formação de Helder, que seus pais não tinham condições de pagar a quantia toda, conforme o Dom, com gratidão, me contou diversas vezes.

Helder pensou em se tornar Lazarista, mas Padre Tobias aconselhou a opção para o sacerdócio diocesano. Pessoalmente gostaria eu, ainda hoje, de descobrir o porquê desta sugestão. Intranquilidade a respeito do futuro do jovem cearense? Alguma motivação nesse sentido não causaria estranheza!

Ao longo de toda a sua vida Helder cultivou uma amizade especial para com dois grandes cristãos. Durante a homilia da Missa do trigésimo dia de seu falecimento, em sua Igreja das Fronteiras no Recife, eu disse: “Helder Camara é uma tradução brasileira, em nossa época, do italiano Francisco de Assis do século XIII e do francês Vicente de Paulo do século XVII”. Todos nós sabemos que Vicente em seu tempo se aproximou de maneira nova dos pobres e dos padres. Certamente é do conhecimento de leitoras e leitores que Dom Helder, na segunda parte do século XX, procurou fazer o mesmo.

No início da Eucaristia que com muitas pessoas celebramos no sétimo dia de sua partida, 2 de setembro de 1999, em sua própria Igreja, recordei que a celebração do início do tricentenário da morte de São Vicente, em 18 de julho de 1959 no Rio de Janeiro, foi o começo do processo que trouxe Dom Helder finalmente (após uma oferta de Salvador da Bahia e uma nomeação para São Luis do Maranhão) como arcebispo – digamos simplesmenteBom Pastor” – em Olinda e Recife. Foi exatamente por motivo de sua nova visão em relação às irmãs e aos  irmãos pobres.

A “Association Dom Helder Camara” fundada em outubro de 2000 em Paris para manter vivas a memória e a atualidade do Dom, promove em várias cidades da França uma exposição e, em um grande painel, pode-se ler esta história, em suas próprias palavras.

Certo dia celebrava-se uma festa de São Vicente de Paulo e eu devia fazer a homilia em honra do Santo. Aproveitei a ocasião para apresentar o que eu pensava a respeito dos problemas sociais. Procurei dizer que o importante não é recordar o que Vicente de Paulo tem feito; isto é bastante conhecido e ele não precisa de nossos elogios. Tentemos, ao invés, refletir: o que faria São Vicente hoje? Quais seriam as principais manifestações de sua caridade? eu disse: a caridade de São Vicente hoje seria bater-se pela justiça”.

Após essa pregação houve uma conversa entre o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, que tinha presidido a Eucaristia comemorativa, e seu bispo auxiliar, nosso Dom. O cardeal achava melhor que os caminhos dos dois se separassem.

O Dom me contou esta história em 1987, quando se tornou membro agregado à Congregação da Missão. Ainda vejo o brilho em seus olhos naquele momento...

Dom Helder é o mais conhecido entre os quase 160 ex-alunos dos Lazaristas que, no Brasil, se tornaram bispos. Foi sagrado no Rio de Janeiro no dia 20 de abril de 1952.

Em 30 de julho do mesmo ano, dia em que completava 60 anos de vida vicentina, padre Guilherme Vaessen escreveu, na Casa das Missões em Fortaleza, a dedicatória de seu livroRetiro para sacerdotes segundo o espírito de São Vicente de Paulo”. Começa ele assim:

“Ilmo. Exmo. Senhor Dom Helder Camara,
Dai-me vossa santa bênção.

É a Vossa Excia. Revma. que dedica estas humildes páginas aquele que, cinco lustros, teve a satisfação de acompanhar, como reitor do Seminário de Fortaleza, o desabrochar de uma bela inteligência e grande coração, de que hoje a Igreja católica e a Pátria brasileira colhem os frutos benéficos e saborosos”.

E o escritor termina da seguinte forma:

“A bênção de V. Excia. Revma., unida à da Virgem Imaculada, compensará as imperfeições  e as fraquezas (desse livro) e as transformará em valor. Seja permitido acrescentar que os Sacerdotes e Religiosos que porventura lerem estas páginas, hão de apreciar imensamente o encontrar à primeira página do nome querido e venerando de quem consagra, como Vossa Excelência, ‘corde magno et animo volenti’, todo o seu amor e atividade à Igreja de Jesus Cristo. Digne-se V. Excia. Revma. aceitar a expressão dos meus profundos sentimentos de respeito e gratidão”.

Padre Guilherme Vaessen faleceu no início do ano no final do qual eu cheguei ao Brasil, 1965. Portanto, conheço-o somente de ouvir falar. Mas tenho a impressão que ele, quanto a Dom Helder, demonstra visão acertada.

Os primeiros padres ordenados por Dom Helder foram seis Lazaristas brasileiros. Quem abre o sexteto é bastante conhecido na Província de Fortaleza: padre Argemiro Moreira Leite, com quem Martinho Groetelaars colaborou na Ilha de Itaparica no estado da Bahia, nos anos 70 do século passado, e que morreu repentinamente em 29 de junho de 2000. O pai de um dos candidatos ao sacerdócio tinha sido colega de Helder no Seminário de Fortaleza. Eis a razão que fez com que o Dom presidisse a ordenação em Petrópolis no dia 28 de setembro de 1958. contava mais de seis anos de bispo; antes, porém, o cardeal Jaime de Barros Câmara não consentiu em ele ordenar padres.

No dia 8 de abril de 1987 Dom Helder foi declarado membro agregado à Congregação da Missão. Em 12 de outubro do mesmo ano ele recebeu, na capela da casa das Filhas da Caridade em Socorro, o pergaminho que atesta este fato, entregue pelo padre Luiz de Oliveira Campos, na época diretor das Filhas da Caridade da Província do Recife. Diversas vezes ele me disse depois: “Eu sou Lazarista também!”

Em 8 de abril de 1997 comemoramos seusdez anos de Lazarista” durante uma celebração doméstica. Nosso então visitador, padre Aluízio Pereira da Costa, se encontrava no Recife e veio com o jubilar, alguns amigos e comigo celebrar a Eucaristia. O Dom apreciava muito a beleza das rosas. Comprei, portanto, dez lindas rosas, que colocamos, com gratidão, no meio da mesa em torno da qual estávamos sentados. Ainda vejo o olhar amoroso do Dom se dirigindo àquelas flores...

Por sugestão de nosso irmão Geraldo Frencken, Dom Helder, durante o encontro dos visitadores da Congregação entre 12 e 17 de julho de 1989 no Rio de Janeiro, concelebrou com eles a Eucaristia e lhes ofereceu uma conferência. Geraldo escreveu na noite daquele dia 14 de julho: “Todos estavam bem entusiasmados e contentes com esse ponto alto de nosso encontro”. Lembro-me que fui receber o Dom no aeroporto do Recife, quando de sua volta. “Foi muito agradável estar com os filhos de Vicente”, disse ao desembarcar.

Na época em que seminaristas de nossa Congregação viviam no Recife, o Dom aceitou por duas vezes um convite meu para visitá-los no bairro de Apipucos. No dia 9 de fevereiro de 1989 ele fez a abertura de um retiro como o tema: “A Oração” e, em 11 de agosto de 1993 falou no início de um dia de reflexão sobreSão Vicente”.

No dia 2 de setembro de 1999 realizou-se, no Senado da República em Brasília, uma sessão em homenagem ao Arcebispo Emérito de Olinda e Recife. Na memória da solenidade pode-se ler: “Aos quatro anos de idade demonstrava especial interesse pela vida religiosa, sob a influência dos padres Lazaristas que atuavam na arquidiocese de Fortaleza naqueles tempos”. Parece um pouco exagerado! Mas, é certo que padres Lazaristas marcaram a vida de nosso Dom.

E, se foi para padre Guilherme Vaessen uma satisfação observar o desabrochar de sua vocação, para mim foi um privilégio acompanhar bem de perto o coroamento da mesma e, juntamente com três padres diocesanos brasileiros e a senhora que durante trinta e cinco anos e doze dias foi sua secretária, zelar pela despedida terrestre do Dom conforme declaração em cartório, de 20 de maio de 1998, no Rio de Janeiro. Essa providência tinha sido tomada para evitar que se organizasse uma despedida soleníssima que duraria vários dias, o que certamente não seria conforme o desejo do falecido.

Dom Helder Pessoa Câmara vive, para sempre, no silêncio de Deus!

Pode ser útil, sobretudo para Lazaristas, mas também para outras leitoras e outros leitores refletir sobre o que ele disse no final de uma meditação sobre São Vicente em um programa de rádio no dia dos 315 anos de sua morte, 27 de setembro de 1975:

Que o Espírito Divino sopre sobre todos os que lidamos com a pobreza, para que sejamos ao menos uma sombra da sombra do grande e querido São Vicente de Paulo”.


João Pubben

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