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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O DOM E EU - AGRADECIMENTO AO SENADO FEDERAL PELA HOMENAGEM PRESTADA A DOM HELDER CAMARA POR OCASIÃO DA PASSAGEM DO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO.


(Anais do Senado Federal, volume 33 nº30, páginas 240,241 e 242 da ata da 3ª Sessão Legislativa Ordinária da 53ª Legislatura).


Na representação do Instituto Dom Helder Camara- IDHeC-, encontro-me aqui para agradecer a homenagem que o Senado Federal por proposição dos senadores Cristovam Buarque, Inácio Arruda, Tasso Jereissati e aprovação unânime dos demais, presta hoje à memória de Dom Helder Camara, por ocasião das comemorações do centenário de seu nascimento.

Trago inicialmente o sentimento de gratidão de todos aqueles e aquelas que tiveram a oportunidade e a graça de conviver com ele não somente em Olinda e Recife, onde ele desenvolveu a parte mais importante de sua missão, mas também de homens e mulheres de todos os cantos do mundo, de cristãos e não cristãos, de crentes e de ateus que o acolheram e que com ele cresceram, participando dos seminários, das homilias e das palestras que ele proferiu em suas numerosas e missionárias viagens.

Pastor e cidadão do mundo, Dom Helder tinha orgulho de ser do Nordeste onde nasceu em 9 de fevereiro de 1909 na cidade de Fortaleza, onde viveu 62 dos seus 90 anos e onde morreu no seu quartinho moradia nos fundos da Igreja das Fronteiras no Recife, em 27 de agosto de 1999.

Vocacionado para o sacerdócio desde a infância, precisou de licença especial para ordenar-se aos 22 anos, antes de completar a idade mínima exigida pela Igreja.

Franzino, com um físico típico da média dos nordestinos do início do século passado, e gigante na fé, Dom Helder viveu durante toda a sua vida a experiência de ser um com Deus e com os homens, explicitando e radicalizando a impossibilidade da divisão do amor a Deus e do amor ao próximo.

Este projeto de amor e doação total a Deus e ao próximo foi sua fonte perene de inspiração e de mobilização de forças, talentos e habilidades que lhe permitiram superar a fragilidade de seu corpo, manter um impressionante ritmo de atividades e ocupar suas madrugadas, 365 vezes por ano, em vigílias de aprofundamento espiritual.

Se hoje ele pudesse estar aqui e fosse agradecer esta homenagem, com certeza ele aproveitaria a oportunidade para, na fidelidade a esse indivisível amor, manifestar pelo menos:

A alegria de estar numa Casa que é a síntese da pluralidade de pensamentos, Uma Casa cuja responsabilidade maior é utilizar as diferenças como instrumento de crescimento e processá-las para a elaboração de políticas que atendam anseios e promovam o crescimento da qualidade de vida de todos os brasileiros;

Ah! Como ele gostaria de repetir aqui a frase que muitas vezes em debates, em congressos ou entregando-se ao Pai em suas meditações ele disse em tom de oração e que agora e por delegação de seus amigos, deixo aqui para reflexão: “SE DISCORDAS DE MIM, TU ME ENRIQUECES”.

Manifestaria também a alegria de constatar que a fome e a miséria têm diminuído no    Brasil e ao lado dessa alegria, a preocupação de que esta diminuição deixe de ser devida a políticas compensatórias que são importantes mas que têm que ser transitórias, e que passe a ser devida, o mais rapidamente possível, à inclusão dos hoje excluídos, pela via do trabalho digno.

Esta sua preocupação com o assunto, que ele considerava indissociável de sua ação pastoral e que por isso lhe trouxe tanta incompreensão, também estava presente em suas vigílias de oração, como ele mesmo registrou na madrugada do dia 02 de dezembro de1964 e que agora leio para aumentar o ânimo de todos nós:

“Estou quebrando a cabeça e me agarrando com o Espirito Santo, é na linha de experiências de promoção humana. Como é difícil realmente superar, ultrapassar o cabo do mero assistencialismo. Como é difícil atingir, de verdade, a autêntica promoção! Um dia contarei, por dentro, como tenho tentado caminhos diversos, e sobretudo, como tenho estudado o assunto e me entregue confiante, ao sopro de Deus”.

Manifestaria também com certeza a sua esperança na evolução do conhecimento humano e o seu aproveitamento em benefício de todos os homens e do homem todo.

Contrapondo-se há quase 50 anos aos religiosos obscurantistas que ainda hoje estabelecem barreiras intransponíveis para a ciência, movidos por preconceitos que lhes parecem dogmas, Dom Helder registrou em sua vigília na madrugada do dia 4 de dezembro de 1964:

“A Bíblia nos ensina que Deus ao criar o homem à sua imagem e semelhança, confiou-lhe a missão de completar a criação. Há quem se aflija vendo o homem atingir domínios que a muitos pareciam exclusivos do Criador. Se amanhã, o homem desembarcando pelo espaço afora, descobrir que o Criador é infinitamente mais poderoso que imaginávamos; se amanhã o homem entrar em contato com outras criaturas de nível humano, sub-humano ou super-humano, ficarão mal os que em nome da fé sustentam que só a terra tem vida, ou ao menos só ela conta com vida humana. Se entrar nos planos divinos que uma criatura Sua, chegue a promover ressurreições ou a conseguir passagem da não vida à vida, quem tiver traçado limites ao plano criador se sentirá perdido. Por enquanto contentemo-nos em registrar o fato de que deixou de ser utopia a possibilidade de desenvolvimento harmônico da humanidade inteira. Contando exclusivamente com forças já dominadas, os técnicos sabem como vencer a fome, como superar a miséria, como promover o desenvolvimento”.

Hoje, dez anos depois de sua morte e na comemoração do centenário de seu nascimento, o Senado lhe presta esta bela homenagem. Com certeza ela não é prestada por causa dos 32 títulos de Doutor Honoris Causa que lhe foram outorgados por universidades importantes do Brasil e do exterior, ou pelos 30 títulos de Cidadão Honorário ou pelas dezenas de medalhas, prêmios e troféus que lhe foram conferidos em quase todas as partes do mundo. Tenho certeza que esta homenagem que o Senado, e através dele, o Brasil todo presta a Dom Helder, é o reconhecimento e a gratidão a um homem que, ultrapassando os limites de uma confissão religiosa, amou intensamente e indivisivelmente a Deus e aos homens, e foi para todos nós, um Profeta de Deus, um peregrino da utopia e o eterno Dom da justiça, da esperança e da libertação. Muito obrigado.
                                    
 Antonio Carlos Maranhão de Aguiar
                                                            


 
Anônio Carlos Aguiar e o Grupo Igreja Nova com Dom Helder, julho de 1999.

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