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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O QUE FOI O PACTO DAS CATACUMBAS EM ROMA, SELADO NO DIA 16 DE NOVEMBRO DE 1965?


 por Eduardo Hoornaert



Em 1965, cerca de 2.500 bispos católicos estão reunidos no Vaticano, nos amplos e ricos espaços da Basílica de São Pedro. Eles são das mais variadas tendências. Há uma maioria que não sabe bem o que está fazendo em Roma. Sei de um bispo que nos intervalos entre as sessões na Basílica e dos momentos de alimentação (tudo de graça) jogava xadrez com um colega. Outros devem ter jogado cartas ou lendo qualquer coisa. De qualquer modo, a maioria não estranha estar na opulência do Vaticano e acha até que isso convém à dignidade episcopal.

Vou descrever em linhas curtas as diversas tendências que se manifestam entre os bispos, baseado no livro ‘O Pacto das Catacumbas’, de José OscarBeozzo, que acaba de ser lançado pelas Edições Paulinas.

O principal agrupamento de bispos à direita goza da simpatia (implícita) da Cúria Romana e da grande imprensa europeia, controlada por forças políticas e econômicas que optam por uma Igreja conservadora. É o chamado Coetus Internationalis Patrum (CIP: Composição Internacional de Padres), que tem como ponto de referência o bispo francês Marcel Lefebvre e como liderança mais visível o bispo brasileiro Geraldo Sigaud. Segundo Beozzo, o ‘Coetus’ reune mais ou menos 300 Padres conciliares, mas sua força é bem maior.

Resulta mais difícil apontar os movimentos da ala esquerda. Aparecem nomes de lideranças carismáticas que por assim dizer simbolizam determinados posicionamentos. Assim o Grupo da Revista Concilium com Yves Congar, o Grupo do ‘Ecumênico’   com o Cardeal Bea, o Grupo ‘alegrias e esperanças’ (que deu nome ao documento conciliar Gaudium et Spes) com François Houtart, o Grupo ‘Opus Angeli’ (que atua na ‘Domus Mariae’) com Helder Câmara, e assim por diante. Nomes como Dell’Acqua, Capovilla, Colombo, Suenens, Lercaro, Liénart ou Doepfer também aglutinam posicionamentos. Esses nomes conferem um certo contorno a correntes, blocos, grupos, que frequentemente se sobrepõem, entrosam, combinam e em determinados momentos se aglutinam.

Mas há um grupo que se destaca pela firmeza de posicionamento e profundidade de questionamento: o da ‘Igreja dos Pobres’. Não aparece em alto relevo na história do Concílio, pois atua de forma discreta, quase tímida. Só na terceira Sessão, em novembro de 1964, propõe publicamente dois documentos que recebem a adesão de mais de 500 Padres conciliares: ‘Simplicidade e pobreza evangélica’ e ‘Para que em nosso ministério [episcopal], se dê o primeiro lugar à evangelização dos pobres). Beozzo fala aqui da constituição de uma ‘rede conciliar’, ou seja, de um elo que perpassa diversos segmentos do universo episcopal reunido em Roma e que consiste basicamente no apoio, pelo menos formal, dado às palavras do papa João XXIII no discurso inaugural do Concílio (11 de setembro de 1962): a Igreja tem de ser ‘principalmente uma Igreja dos pobres’. Com essas palavras, o termo ‘pobre’ ganha um estatuto epistemológico que conserva durante decênios em meios eclesiais, principalmente na América Latina. No grupo ‘Igreja dos Pobres’, o nome que mais se destaca é o do Padre-operário francês Paul Gauthier, animador dos ‘Companheiros de Jesus carpinteiro’ em Nazaré. Em Roma, as reuniões desse grupo costumam se realizar no apartamento do Padre Gauthier ou no Colégio Belga.

O que une os bispos da ‘Igreja dos Pobres’ é um comum afeto, uma sensibilidade compartilhada. Numa Roma eclesiástica feita de símbolos de poder, ou seja, no Vaticano, esses bispos não se sentem bem. Aparece a imagem das ‘catacumbas’, que sugere uma Igreja ‘subterrânea’ e perseguida.

Três semanas antes da conclusão do Concílio, no dia 16 de novembro de 1965, alguns membros da ‘Igreja dos Pobres’ se reúnem na Catacumba de Santa Domitila em Roma. Dois meses antes, em 12 de setembro, o papa Paulo VI esteve na catacumba Santa Domitila, mostrando um apoio simbólico à ideia de uma ‘igreja das catacumbas’. Mas coisa concreta mesmo vem com a missa concelebrada, presidida por Mons. Himmer, bispo de Tournai na Bélgica. Os bispos presentes firmam entre si o chamado ‘pacto das catacumbas’, um compromisso de vida ‘para anunciar uma boa nova aos pobres’.  Tudo de forma muito discreta, quase clandestina. Só três semanas depois, no dia do encerramento do Concílio (8 de dezembro de 1965), o jornal francês Le Monde publica, sem muito relevo, uma nota acerca de ‘um grupo de bispos anônimos que se compromete a dar o testemunho exterior de uma vida de pobreza estrita’. A nota é assinada pelo jornalista Henri Fesquet, observador do Concílio em nome de dito jornal.

Anos depois, por meio de uma pesquisa realizada nos papeis do bispo Himmer, se conseguiu resgatar a lista dos participantes, como revela Beozzo numa Nota que se encontra na Internet. Os signatários são 39, na quase totalidade bispos. Há alguns sacerdotes (como o Padre Luiz Gonzaga, sagrado bispo poucos dias depois, e Paulo Gauthier). Registra-se igualmente a presença de uma mulher, Marie Thérèse Lescaze, carmelita francesa residente na Palestina, participante do grupo em torno do padre Gauthier. Oito bispos brasileiros assinam (uns na hora, outros depois) o documento: Antônio Fragoso de Crateús, CE; Francisco Austregésilo Mesquita Filho de Afogados da Ingazeira, PE; João Batista da Mota e Albuquerque, arcebispo de Vitória, ES; Luiz Gonzaga Fernandes (que está para ser sagrado bispo auxiliar de Vitória, dias depois) Jorge Marcos de Oliveira de Santo André, SP, Helder Câmara de Recife, PE; Henrique Golland Trindade, arcebispo de Botucatu, SP; José Maria Pires, arcebispo da Paraíba, PB. Helder não está presente na hora, embora Beozzo escreva que ele seria o autor do texto, como realça Beozzo. Nos anos 1990, são principalmente os bispos José Maria Pires, Valdir Calheiros, Antônio Fragoso e Adriano Hipólito que rememoram o pacto.

De outros países da América Latina assinam dez: Manoel Larrain de Talca no Chile; Marco Gregorio Mc Grath do Panamá (diocese de Santiago de Veraguas); Leonidas Proaño de Riobamba, Equador; Alberto Devoto de Goya, Argentina; Vicente Faustino Zazpe e Enrique Angelelli, bispo de Rioja, assassinado pelo governo militar, da Argentina; Juan José Iriarte de Reconquista, Argentina; Alfredo Viola, bispo de Salto, Uruguay, e seu auxiliar, Marcelo Mendiharat; Tulio Botero Salazar, arcebispo de Medellín e seu auxiliar, Medina, da Colômbia. Da Itália assinou Luigi Betazzi, naquela época auxiliar do cardeal Lercaro em Bologna. Da França há os seguintes nomes: Guy Marie Riobé, bispo de Orleans, Gérard Huyghe de Arras e Adrien Gand, bispo auxiliar do Cardeal Liénart em Lille.

Nos papeis de Mgr.Himmer ainda aparecem outros nomes, de diversos países: Georges Mercier, bispo de Laghouat no Sahara, Hakim, bispo melquita de Nazaré, Haddad, bispo melquita, auxiliar de Beirute, Gérard Marie Coderre, bispo de Saint Jean de Quebec do Canadá, Rafael Gonzalez Moralejo, auxiliar de Valencia na Espanha, Julius Angerhausen, auxiliar de Essen na Alemanha, Muñoz Duque de Pamplona, Raúl Zambrano de Facatativá e Angelo Cuniberti, vigário apostólico de Florencia. Da África assinaram Bernard Yago, arcebispo de Abidjan na Costa do Marfim, Joseph Blomjous, bispo de Mwanza, na Tanzânia; da Ásia, Charles Joseph de Melckebeke, belga, bispo de Ningsia na China, expulso e morando em Singapura. Havia também bispos do Vietnã e Indonésia.

Os símbolos do Pacto, como trocar o ‘anel joia’ pelo simples ‘anel do pescador’, simplificar vestimentas litúrgicas e abandonar o estilo pomposo tradicional, significam um compromisso de vida muito concreto, em termos de moradia (abandono do ‘palácio episcopal), transporte (automóvel simples), riqueza pessoal (não ter dinheiro pessoal no banco). Enfim, os bispos unidos pelo Pacto se comprometem a viver como vivem as pessoas comuns do país onde residem.

Tudo isso acontece de forma muito discreta, quase clandestina, o que mostra fortes resistências no corpo episcopal em geral diante da ideia de uma ‘igreja dos pobres’. O Pacto, até hoje, continua influenciando o estilo do episcopado católico. As pessoas ficam mais atentas ao modo em que o bispo se comporta, além das palavras e dos discursos. Isso é um ganho definitivo e nesse sentido podemos dizer que o Pacto das Catacumbas constitui o evento mais importante ocorrido dentro do Concílio Vaticano II.


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