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domingo, 7 de fevereiro de 2016

OUTRAS PALAVRAS: ALGUMAS ANOTAÇÕES A RESPEITO DE MEUS ENCONTROS COM DOM HELDER CAMARA

Hoje, 07 de fevereiro, celebramos os 107 anos da vida de Dom Helder. E, nada melhor para lhe prestar uma homenagem, do que este texto, enviado pelo nosso querido Pe. João Pubben, lá da Holanda.


Foram muitos, os encontros...

O primeiro, em um dia de maio de 1968; tinha ele 59 e eu 29 anos. O último, no dia 27 de agosto de 1999; ele com 90, eu com 60 anos de idade.

Em alguns momentos difíceis e decisivos de minha vida Dom Helder foi de suma importância. Anualmente ele visitava nossa Comunidade Cristã de São Vicente de Paulo em Dois Unidos, por ocasião da Festa do Padroeiro, dentro da programação da Campanha da Fraternidade ou em outras ocasiões

Sempre nos encontramos por motivo de celebrações, reuniões e eventos. Eu participava regularmente da Eucaristia que ele celebrava, em dias de semana, às 6 horas na Igreja das Fronteiras e tomava, em seguida, em sua casinha o café da manhã com ele.

Em 1994, vivendo 85 anos, a saúde de Dom Helder começou a enfraquecer. Respondi positivamente a um pedido seu para ajudá-lo um pouco. Entre julho de 1994 e agosto de 1999 me dirigi nas tardes das terças e quintas-feiras e nas manhãs dos domingos (e às vezes ainda em outros dias) à sua residência para concelebrar com ele a Santa Missa (como ele gostava de chamar a Eucaristia). Durante a semana, na casinha dele em torno da mesa com alguns colaboradores e amigos; aos domingos e em dias de festa, na Igreja das Fronteiras, geralmente repleta de irmãs e irmãos fiéis. Guardo um relatoriozinho que indica que foram, entre 25 de julho de 1994 e 25 de julho de 1999, 741 celebrações eucarísticas. Depois houve ainda 9 missas, acontecendo a última na terça-feira 24 de agosto de 1999. Nesses anos, também, acompanhei o Dom numerosas vezes em celebrações, encontros, comemorações e festividades nas cidades de Recife e Olinda. No último dia de sua vida permaneci durante longo tempo ao lado de sua cama, segurando a sua mão e, vez por outra, colocando minha mão sobre sua testa. Tive, então, oportunidade de agradecer o muito que me deu...


Poucas horas após seu falecimento celebrei com amigos e colaboradores a primeira Missa de corpo presente.

Enumero, em seguida, dez realidades na vida de Dom Helder que, através dos anos, me tocaram.

Dom Helder era uma pessoa em quem contemplação e ação tiveram todas as chances. Ele vivia as duas em grande equilíbrio e profunda ligação. Muito se falou e se escreveu sobre seu agir. Graças a Deus! As pessoas que viveram bem perto dele, são unânimes em atestar que tudo o que fazia, nascia de reflexão e era sustentado por oração.

Quão grande foi a do Dom! Muitas vezes, vendo-o e ouvindo-o, pensei: “Essa deve ser a que move montanhas, sobre a qual fala o evangelho”. Em mais de uma ocasião me sentei à sua mesa com dúvidas, que desapareciam quando ele me falava.

O Dom não rezava a Missa, não presidia a Celebração; ele vivia a Eucaristia intensamente e esta perdurava o dia todo. Diz ele em uma de suas meditações: “Quando não estou na Santa Missa, me preparo para este ponto alto de meu dia ou vivo em ação de graças porque o ponto alto passou”.




Dom Helder era um homem livre. Claro que vivia, como nós, dentro das estruturas da Sociedade e da Igreja, porém, parecia que as mesmas para ele não existiam, embora ele tenha sofrido um bocado por causa de um determinado funcionamento delas. Mas, elas não o derrubavam. Ele não tinha medo delas. Durante sua visita ao Recife, Dom Jacques Gaillot, bispo de Partênia, dizia: “Quando a gente tem medo não é livre, e quando é livre provoca medo”.

Sempre tive a impressão que Dom Helder procurava e descobria o cerne das realidades, deixando de lado o supérfluo. Ganhava, assim, muito tempo e muita energia para se dedicar ao que realmente importava.

Parecia que dificuldades não desanimavam o Dom, masantes – o convidavam a se jogar na luta para vencê-las.

Dom Helder era um homem cheio de compreensão. Escutava os sofrimentos e as dificuldades de suas irmãs e seus irmãos mais com o coração que com os ouvidos. E, para confortá-los abria, também, mais o coração que a boca!

Dom Helder era misericordioso. É do conhecimento de todos que ele sofreu bastante por parte dos poderosos do Mundo e da Igreja. Muitíssimas vezes ele falou forte contra muitas formas do mal, mas inutilmente se procurará em seus numerosos escritos palavras duras contra as pessoas que causavam o mal. A elas, o Dom soube perdoar.


O Dom amava a vida, “o sonho mais lindo de Deus” – como canta padre Reginaldo Veloso. Ele se entristecia profundamente quando a vida, tanto nas Sociedades como nas Igrejas, era machucada, ferida, pisada, explorada, marginalizada e colocou toda a sua longa existência a serviço da vida, ajudando a vida a desabrochar, dando chances à vida, zelando pela vida, protegendo, defendendo e promovendo a vida.

O Dom era muito amável, tão humano. Permitam-me três exemplos pessoais.

 * Um dia após o martírio do Padre Antônio Henrique Pereira Neto (27-5-1969), fui internado no Hospital Pedro II no Recife e submetido a uma cirurgia. Apesar das grandes preocupações que teve naqueles dias dolorosos, o Dom foi um dos meus primeiros visitantes após a operação. *Em 30 de abril de 1970 viajei, pela primeira vez depois de cinco anos, em férias à Holanda. No dia anterior me despedi do Dom em sua casa. Mas, pouco tempo antes do embarque apareceu ele no aeroporto dos Guararapes para dar mais um abraço de boas rias e ele não se esqueceu de mandar uma fraterna saudação para meus Pais que, um mês mais tarde, abraçou cordialmente na minha terra natal

* Em 1996 tive uma gripe tão forte que pedi a um colega para concelebrar com Dom Helder no domingo 19 de maio. Qual minha surpresa quando, na tarde do mesmo dia, o Dom – na companhia de sua secretária e de sua enfermeira – aparecia em nossa casa em Dois Unidos, fazendo uma visita amiga e trazendo uma lata cheia de confeitos holandeses, explicando que eram muito bons contra a gripe, pois – dizia ele – “vem da querida Holanda”.

Para minha tentativa de viver como gente, cristão e padre o Dom continua oferecendo fortes exemplos...

Se membros da Congregação da Missão quiserem se inspirar nele, em sua vida, em sua missão, o Domsem dúvida – os abençoará!

Que Dom Helder Pessoa Camara viva para sempre feliz no Silêncio de Deus e que nós caminhemos na Paz do Senhor e na Fraternidade das Irmãs e dos Irmãos.

João Pubben

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