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segunda-feira, 7 de março de 2016

ALGUNS CAMINHOS ECUMÊNICOS DE DOM HELDER CAMARA[1]

Postamos hoje a reflexão que o Prof. Biu VIcente fez no dia 28 de fevereiro, na celebração dos 107 anos de nascimento de Dom Helder. 


Prof. Dr. Severino Vicente da Silva[2]



Caros Amigos pediram-me para dizer algumas palavras em torno de Dom Hélder e a Campanha da Fraternidade que estamos vivenciando nesta Quaresma. Ela trata de Nossa ;Casa Comum, nos convida a viver em permanente ação para manter o mundo limpo e digno para a vida de todos os humanos. Há muito a se dizer sobre Dom Hélder e a partir do que ele fez e escreveu. Praticamente quase todos os que aqui estão presentes poderiam fazer o que estou a iniciar, pois quase todos conheceram Dom Hélder, conviveram com ele. Assim, sei que pouco de novo terei a dizer a vocês. Para nossa conversa tomei algumas circulares e fiz ampliações, quase generalizações. 

Alguns anos já se passaram desde a ressurreição de Dom Hélder Câmara. Era o penúltimo ano do século XX, um século que teve seu início marcado pelo quase isolamento da Igreja Católica Romana, prisioneira no Vaticano, apesar dos esforços de Leão XIII em acompanhar alguns católicos na sua inserção no mundo real.[3] Leão XIII voltou-se para a América Latina e para o Brasil, criando colégios e favorecendo a reorganização, reestruturação da Igreja diante do mundo liberal positivo. Algumas iniciativas começaram a dar um ordenamento mais contemporâneo ao Direito Canônico, eram ensaiados os primeiros passos de uma renovação litúrgica, mas continuava uma distância das angústias dos mais pobres, no que pese a ação do jovem padre José Cardjin. A guerra iniciada em 1914, cinco anos após o nascimento de Hélder, fortaleceu o aprisionamento do século nos nacionalismo. As Nações e Estados afirmaram-se, limitando os espaços humanos. As ideologias que se afirmavam possuidoras de espírito social e universal racionalizaram o amor à morte, como bem explicou Erich Froomm. Entretanto, a Guerra provocou a intervenção papal que, para além da caridade, agiu em busca da Paz; na iniciativa de Bento XV, veio uma proposta de uma Paz sem vencedores,[4] um paz que ultrapassasse os nacionalismos criados pela expansão do capital, mas que foi uma oportunidade perdida, uma vez que alguns bispos não ultrapassaram as lealdades locais e nacionais. Claro que as propostas de Bento XV foram recusadas oficialmente por todos os governos, mas elas podem ser vislumbradas nos melhores momentos da proposta do Presidente Woodrow Wilson, dos EUA, e dos acordos que levaram à formação da Liga ou Sociedade das Nações, criada logo após o fim da Guerra, mas que não conseguiu evitar ou diminuir o ambiente de competição entre os Estados e Nações europeias[5]. Foi necessária a experiência mais dolorosa da Guerra iniciada em 1939, e terminada após a explosão das bombas sobre Hiroxima e Nagasaki, para que os homens e as sociedades fossem demandadas a começarem alguns passos na direção de uma visão universal.

Ecúmeno é um conceito geográfico, lembra o espaço habitado pelos homens, espaço de onde é retirada a vida e onde se vive. Mas para os cristãos essa palavra passou a significar obra de Deus, uma tarefa a se realizada. É obra de Deus auxiliar que todos o reconheçam. Entretanto as peripécias dos homens na história, mais que uni-los, parecem promover separação, o que ocorre também entre os cristãos. O Ecumenismo é, assim, esse movimento que, os cristãos de diversos matizes, vêm realizando para reunirem-se, após as dolorosas separações ocorridas ao longo dos séculos.

No século XI ocorreu a separação das Igrejas de Roma e Constantinopla, foi o Cisma da Ortodoxia, com os líderes dessas correntes cristãs excomungando-se mutuamente. E desde então são dez séculos de olhares desconfiados e furtivos. Neste ano de 2016 tivemos a felicidade de vermos nossos dois líderes sentando-se, abraçando e trocando ósculos, realizando um dos desejos mais profundos dos padres conciliares do Vaticano II. 
No século XVI, o mundo cristão europeu sofreu mais um rompimento, com as desinteligências entre Leão X e sua corte e o padre Martinho Lutero. E vieram muitas igrejas cristãs não católicas no Ocidente, e nos acostumamos a chama-los de protestantes.  As Igrejas cristãs protestantes desde o século XVIII procuram realizar movimentos conjuntos para realizarem as missões e cooperam no que lhe for possível, e esse movimento pode ser chamado ecumênico.



Na nossa Igreja Católica Romana, os papas Leão XIII, Pio XI, em alguns documentos mencionaram que os católicos devem reconhecer que cometeram erros que levaram à separação de alguns irmãos, referindo-se tanto aos Ortodoxos quanto aos protestantes. Como sabemos pouco desses aspectos do nosso magistério nos surpreendemos desnecessariamente com os movimentos pela unidade do atual papa Francisco, que vem aprofundando alguns passos que foram dados durante o Concílio Vaticano II.

Mas, como nós já dissemos anteriormente o Ecumenismo não é algo natural, é uma tarefa que recebemos: realizar a obra de Deus.  E o padre Hélder teve que construí-lo, superando a ideologia que o seduziu quando ainda era um jovem padre desejoso de promover mudanças na história dos homens. Aqueles primeiros anos da vida sacerdotal foram misturadas com práticas integralistas, mas tiveram desfecho com a intervenção do Cardeal Leme e das conversas com Alceu de Amoroso Lima. Os anos quase burocráticos no Ministério da Educação e a Capelania na Escola de Enfermagem Ana Nery, parecem ter sido básicos para leitura e meditação que viriam a iluminar os caminhos que o Pai veio a abrir para ele. Nessa mesma época vieram as conversas com o padre José Távora, vigário e organizador dos operários em Goiana, que foi levado ao Rio de Janeiro pelo Cardeal Leme após o Congresso Eucarístico realizado em Pernambuco. O estudo e o diálogo, a exposição das ideias e a audição das ideias, o reconhecimento da diferença e não o desejo da redução do outro foram caminhos trilhados, parece que conscientemente, no processo de sua formação constante. E então veio a experiência da Ação Católica; o desafio de ouvir jovens de todo o Brasil e, então começar a pensar um projeto para a Igreja no Brasil, um projeto aberto à experiência social, um projeto voltado para os pobres, seguindo a sugestão de tornar a realidade social tão bela quanto a beleza geográfica disposta pela mão divina. Dessa experiência amadurecem, creio eu, as ações para livrar os bispos do Brasil de uma concepção acanhada de diocese voltada para si mesmo, conceito formulado no Concílio de Trento, no século XVI. O bispo residente não pode ser um prisioneiro das fronteiras físicas da diocese, mas a ação de um bispo cria e amplia a sua diocese para os limites do mundo. A ação de um bispo é sempre uma Missa sobre o Mundo.
A Ação Católica auxiliou a verificar a existência de problemas comuns entre as dioceses vizinhas que formam uma Província, e também a ideia mais ampla de uma Conferência Nacional dos Bispos, o que, pelas reuniões e colegialidades, veio a quase criar um constante sentimento de concílio da Igreja no Brasil, como que a preparando para a abertura proposta pelo Papa João XXIII. CNBB e CELAN anteciparam o Vaticano II. Essas instituições são ecumênicas em seu projeto e realização. E então sabemos que foi quase natural o que ocorreu na Domus Mariae, que se tornou ponto de atração de padres conciliares dos vários continentes, que ali foram trocar experiências para entender qual deve ser a Opera de Deus. Assim Dom Hélder se expressa na 14ª Circular, de 28 de outubro de 1962:
“Tenho tido consolo profundo ao conversar com Bispos missionários de todas as partes do mundo: não têm dúvida – embora se sintam impelidos a levar a todos a Boa Nova, estão convictos de que o grosso de suas ovelhas (não só maometanos ou budistas, mas pagãos) se salvará. Pertencem à alma da Igreja. Têm implícito, o desejo de tudo o que é necessário à salvação (inclusive o batismo)”.     

Este sentimento de respeito às diferença, esse sentimento de deixar em segundo plano a tarefa de buscar prosélitos, vem acompanhado, como sempre, com as preocupações da vida material dos homens, dos despossuídos, pois Dom Hélder não mais entende a salvação do homem apenas como salvação da sua alma, mas do homem como um todo.  Na mesma Carta, algumas linhas abaixo, encontramos: “todos eles (os Bispos Missionários) me confirmaram o horror dos famosos 2/3 que jazem (a expressão é esta) no subdesenvolvimento e na fome. Como nos entendemos no ar e como cresce, dia a dia, o sagrado complot!”.

Nos anos cinquenta, foi o desejo de ampliar a ação da Igreja do Rio de Janeiro no acolhimento dos pobres que o levou a imaginar e criar a Cruzada São Sebastião, que, apesar de receber o apoio do papa, escutou João XXIII lhe dizer:
“vê-se que não conhece o próximo Oriente! Se tivesse conhecido o Próximo Oriente, nunca teria utilizado a palavra cruzada para o seu trabalho de libertação dos pobres! Porque ao contrário do dizem muitas vezes os historiadores, essas malditas cruzadas abriram entre nós e os muçulmanos, um fosso difícil de ser superado...” [6]

João XXIII auxiliou a ampliar o conceito da ação, apontou como superar o que parecia ter-se cristalizado, pondo barreiras, até hoje, intransponíveis. O uso de certas palavras, marcadas negativamente ao longo da história, limitam a ação ecumênica. Essa delicadeza da escolha do vocabulário, para não ferir o outro, permitindo a formação de sendas que levem para o reordenamento da unidade, parece que Ângelo Roncalli a desenvolveu a partir da experiência na diplomacia na Bulgária, na Turquia, além do período nos campos de batalha na Guerra de 14-19. A delicadeza do Papa ao falar, provoca a atenção naquele que ouve, e que era então Secretário Geral da CNBB. Mais tarde, quando o Arcebispo de Olinda e Recife tem que enfrentar os problemas de um Recife coberto de água e lama em 1965, eis que vem, não mais a ideia de uma cruzada, mas a Operação Esperança, uma ação que opera com e na esperança, com participação dos párocos, de pastores protestantes e dos fiéis e cidadãos a quem não se cobra engajamento em igrejas, mas a adesão na busca de respostas coletivas e justas. Mais que uma ideia, ou discursos em torno de ideais, o Ecumenismo é a ação, é o agir na unidade para construir a unidade. Recentemente o Papa Francisco ensinou que o cristianismo é uma religião do fazer. Cuidar dos pobres, visitar os enfermos, etc..



Na 15ª Circular, datada de 29 de outubro de 1962, temos o relato de uma conversação com o teólogo Hans Küng, após uma palestra que teve como tema O Concílio volta à unidade. Foi uma reflexão sobre os caminhos que são aplainados no sentimento ecumênico, mas, lembra o teólogo de Tübingen, as suspeitas e desconfianças de 400 anos, no caso dos protestantes, ou 900 anos, no caso da Igreja Ortodoxa, a unidade não será realizada ou conseguida apenas com um encontro. Então aparece o encantamento de Dom Hélder com a palavra encontro, que, ele diz que estava sendo a preferida pelo Papa João. Notável como, alguns anos depois, ao convidar a arquidiocese para uma renovação evangélica, chama essa ação de Encontro de Irmãos, expressão que abre aquelas reuniões semanais em torno do rádio para todos cristãos e mesmo não cristãos.

A busca e construção da unidade ecumênica no âmbito da própria Igreja extrapolam o pensamento e os planos de Dom Hélder para além do imediato e local, está sempre voltado para o mundo, como disse o Cardeal Montini: “Admiro a altura e beleza dos seus planos. O senhor só sabe pensar nas dimensões do mundo ou melhor da Igreja.[7] E é nesta direção que, desde os primeiros momentos do Concílio, Dom Hélder sonha com Bandung[8] cristão, envolvendo as Conferências Episcopais da América Latina, África e Ásia, com o espírito católico, desejando e preparando o diálogo com o mundo desenvolvido.[9] Esse projeto será buscado e ampliado nas décadas seguintes ao Concílio Vaticano II, na articulação da Ação Justiça e Paz, na defesa dos direitos humanos, na luta contra a Espiral da Violência.

Mas há ainda outros caminhos, outras sendas abertas na construção do ecumenismo. A conversação também é constante com não cristãos, budistas, maometanos, judeus, ateus. Constantes, suas cartas a referência a Roger Garaudy, então Secretário do Partido Comunista Francês; a Erich Fromm, psiquiatra e humanista dissidente da Escola de Frankfurt; Tuong Chin, presidente do Vietnan, entre outros.

Todas as experiências humanas são carregadas de valores e elas foram foco de interesse e reflexão do bispo ecumênico, um ecumenismo para além do diálogo com as religiões, um ecumenismo com religiosos e com não religiosos. Ele compreendeu que a obra de Deus é mais ampla que a maior das catedrais, pois a grande catedral é a nossa Casa Comum.


[1] Para Aniversário de Dom Hélder. Igreja das Fronteiras, Recife, 28 de fevereiro 2016.
[2] Professor Adjunto IV no Departamento de História da UFPE, membro da CEHILA, sócio do Instituto Histórico de Olinda.
[3] SILVA, Severino Vicente da. Entre o Tibre e o Capibaribe, os limites do progressismo católico na Arquidiocese de Olinda e Recife. 2ª edição. Recife; Olinda: Editora Universitária UFPE/ Editora Associação REVIVA, 2014.
[4] SILVA, Severino Vicente da. Da Guerra à Neocristandade. A Tribuna Religiosa -1917-1919. Curitiba: Editora Prismas, 2015.
[5] A Liga das Nações foi criada a 28 de abril de 1919.
[6] DE BROUCKER, J. Les conversin d’un évêque. Entretiens avec José de Broucker. Paris: Ed. Du Seuil, 1977.  Citada nas circulares Conciliares, Volume I, tomo I. Recife: CEPE Editora; Instituto Dom Hélder Câmara. P  LXIII.
[7] Circulares Conciliares. Volume I, Tomo I; Circular 20.
[8] A Conferência de Bandung ocorreu em 1955 e reuniu representantes de países africanos e asiáticos que procuravam organizar-se para superar os problemas causados por anos de colonialismo, e preservar as suas expressões culturais da investida das grandes potências – USA e URSS, além daquelas que durante anos os exploraram. Dessa conferência veio o conceito de Terceiro Mundo. 
[9] Circulares Conciliares. Volume I tomo I. Circular 13. 27 de outubro de 1962.

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