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sexta-feira, 24 de junho de 2016

CARTAS CIRCULARES : A FESTA DE SÃO JOÃO



Sendo hoje o dia de São João Batista, vamos rever a 229 ª circular de Dom Helder, à Família Mecejanense, escrita na madrugada de 23 para 24 de junho de 1965

Vigília em louvor de São João Batista

A querida Família Mecejanense

Como anunciei, andei acendendo fogueiras em louvor de São João.

Nós, ai no Rio, não fazemos ideia do que são, por aqui, os festejos populares de São João. Família que pode, acende em frente da casa fogueira de verdade.

Quem não pode, junta uns gravetos e queima.

Cheguei a pensar que o Povo não brincasse São Joao neste ano. Mas o Sítio da Trindade (seis quilômetros, no coração da Cidade. Antigo Quartel-General do Movimento de Cultura Popular. Atual sede da Fundação Guararapes. Local histórico, porque ali morava Fernandes Vieira e dali partiu a arrancada final contra os holandeses) apanhou multidão enorme. Ao ver o Sítio todo iluminado e cheio de barracas e diversões, fiquei, mais uma vez, pensando no partido a tirar de local tão privilegiado.

Dinheiro para comprar comida e para brincar, o Povo mesmo não tinha.

Mas o sítio iluminado já e uma festa. Namoro não cobra taxa. E sempre se pode parar vendo uns dois ou três que atiram ao alvo ou rodam na roda gigante...

Quanto a criançada, brinca direto, pois o que e que não e brinquedo para os prediletos de Deus?...

Olhei, longamente, o Teatro de Arena que a Fundação Guararapes insiste em que eu use... Alias, pelo gosto da Fundação, eu usaria sempre o Sítio inteiro.
Saímos daí (o Pe. Severino Santiago, na direção; Marina Bandeira e Feo conosco) e fomos ao Alto da Favela.

Os Altos (Morros daqui), com mais um impulso, viram Santa Teresa. Basta que se estenda a todos o que alguns (como o da Conceição) já têm: uma infraestrutura de estrada, água, esgoto, luz, Colégio, Centro Policial, Igreja... O resto vem por si: à proporção que os trabalhadores melhoram de condição, as casas passam de taipa a alvenaria. Nos Altos da Paroquia de Vasco da Gama chamou atenção a limpeza das casas e das ruas.

Estou afiado em acender fogueira. E como o Povo se alegra e vibra vendo o Bispo participar de seus folguedos inocentes! O rito era: acender a Fogueiramor (cercada de pequenas fogueiras pequenas), dar uma palavra ao Povo, ao benzer o fogo; assistir ao lançamento de um balão (soltam-se centenas...); no Clube local, assistir a uma Quadrilha; entrar em, pelo menos, meia dúzia de casas em cada Alto e beliscar meia dúzia de pratos de canjica, provar pamonha e milho assado...

Garanto a vocês que a rodada valeu como Visita Pastoral. A visita apanha o Povo em momento artificial. A rodada surpreendeu minha Gente numa hora de expansão natural, de folguedo, de distração...

Pároco (Pe. Severino) profundamente identificado com a Paróquia inteira, inclusive com os Clubes.

Em cada Alto, fiz questão de visitar a Família em cuja casa pernoita o Seminarista que vem ajudar a Paróquia no fim de semana... Famílias escolhidas com extremo cuidado. Casas de taipa, de piso de terra batida. Famílias piedosas, mas pobres, muito pobres. Imagino o bem que fazem e que recebem meus futuros Padres, neste batismo de fogo!


Obs. Em uma Carta Circular anterior, a 221 ª, de 7/8.6.65, Dom Helder relata, com alegria, os locais onde, lado de D. Lamartine, acenderá fogueiras. Ele escreve: “na Vigília de São João acenderei Fogueiras; às 19h no Sítio da Trindade; às 20h, no Alto da Favela; às 21h no Alto Nossa Senhora de Fátima; às 22h no Alto do Eucalipto; às 23h no Alto do Visgueiro...”. 

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