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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

UM OLHAR SOBRE A CIDADE: EMPREGADAS E PATROAS


Quarta-feira, 2.10.1974

Meus queridos amigos

É delicado falar sobre as domésticas. Costuma ser assunto bastante explosivo. Domésticas e patroas costumam, quando muito, salvar uma paz armada. Só por exceção, domésticas e patroas se dão de verdade.

Se escutarmos um grupo de domésticas, rara é a que não tem queixas a apontar. Se escutarmos um grupo de patroas, não esperamos muito que se derramem em elogios as domésticas.

Sem esquecer que há falhas, de lado a lado, tentemos uma palavra serena nesse debate apaixonado. Que as patroas se lembrem que isto de ser patroa ou empregada é só aqui na terra: depois da morte não tem mais isto. Junto a Deus todos somos criaturas, todos somos filhos de Deus. Posição social e dinheiro não valem de nada na eternidade.

A única riqueza que conta, na outra vida, é o bem praticado aqui, no chão dos homens.

Nos países industrializados, praticamente, desapareceu a classe de domésticas: elas partiram para outras profissões, trabalhando no comércio ou na indústria. Doméstica é herança da escravidão.

Há patroas, sobretudo em nosso Nordeste, com todo o ranço de antigas senhoras da Casa Grande. Não gostam de usar nem o nome de empregadas, nem o de domésticas. Só acertam falar em criadas, como nos tempos em que, vinda da Senzala, a Nega Fulô chegava para cuidar da sinhazinha.

Por que não tentar um entendimento humano e cristão enquanto durar a classe social de domésticas? Por que não ter a doméstica como uma pessoa da casa, da família? Não adianta dizer que há empregadas ladras, preguiçosas, sem saber fazer nada... Qual é a classe que não tem elementos que a envergonhem?

Há muito preconceito social! Uma senhora que se considerava crista e queria ser crista descobriu que a empregada, quando terminava o serviço da casa, ficava espiando de longe a TV. Imediatamente, a própria patroa arrumou o aparelho de TV de tal maneira que a empregada ficou sem ver nada.

Outra patroa, muito digna, mas, sem saber, muito embebida de preconceito social, quando as filhas saíam e ela ficava só com a empregada, sentia-se só. Empregada não era gente. E ela chamava, com urgência, uma amiga.

Já viram, de perto, o que costuma ser os chamados quartos de empregada? Prefiro nem comentar o que costumam ser...

Claro que desejo melhoria no trabalho das domésticas: que elas aprendam a fazer o que tem de fazer, que elas trabalhem de cara alegre, de coração aberto, dando o máximo do que podem dar.

Mas que as patroas não esqueçam um instante: “Sou patroa, sim, e ela, empregada, mas as duas somos filhas do mesmo Pai que está nos céus...”


Na eternidade, não haverá mais empregada, nem patroas. De lado a lado, haja esforço para uma comum vida humana cristã.

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