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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

UM OLHAR SOBRE A CIDADE: MÃOS SUJAS


Terça-feira, 19.9.1975

Meus queridos amigos

Pense quem quiser que é demagogia: gosto de apertar as mãos, aparentemente sujas, dos garis da limpeza pública, dos engraxates, dos pintores, dos pedreiros, das cozinheiras, dos mecânicos... A intenção verdadeira, que o Pai conhece, é provar que trabalho não suja a mão de ninguém. Pelo contrário, para quem tem olhos de ver, o trabalho transfigura as mãos.

A mão está suja, mas não de roubos. E nem estou pensando em pequenos furtos — que eu não louvo, não encorajo — mas são mais mata-fome, a que os teólogos dariam o nome de compensação oculta.

Penso nos grandes roubos que não deixam rastro. Nos roubos que saem de carros de luxo e redundam em promoções. Engane-se quem quiser: mãos hábeis de ladroes super-ricos, para Deus são mãos fétidas. Sobretudo se forem roubos esmagando gente humilde, gente sofrida.

A consciência vai ficando insensível. Como há quem negue até o ínfimo salário mínimo e não tenha mãos a medir em gastos de puro luxo e exibição? Suja a mão o sangue do próximo. Há quem pense que passou a época dos jagunços, dos pistoleiros, pagos para fazer um serviço, pagos para eliminar adversários dos poderosos.

Há quem pense que pelourinho, onde negro era açoitado, já é apenas peça de museu. Há quem imagine que, em nosso século, não há lugar, não há clima, não há vez para torturas que se enterraram com a Idade Média. Antes fosse! Ainda há mãos sujas de sangue!

Claro que não esqueço o absurdo e o horror de sequestradores que, simplesmente por sequestrarem, já torturaram uma família inteira e traumatizaram a cidade toda e, não raro, o país e o mundo. E quantas vezes, os sequestradores não atendidos em suas exigências liquidam, de maneira bárbara, suas vítimas.

Suja a mão o egoísmo, a avareza. Mãos que sofrem ao terem que se abrir para dar. Mãos que para tudo guardar se fecham, se crispam.

São mãos sujas, são mãos inúteis as de quem não trabalha porque não quer trabalhar e despreza o trabalho. Ninguém, por mais rico que seja, tem desculpa para não trabalhar. Podem ser de pele finíssima, sem sombra de calos. Podem ser mãos que usam sabonetes, cremes, perfumes caros e raros: mãos inúteis, quando tem saúde, para quem tem o verdadeiro senso de odor, são mãos cujo cheiro aflige.


Quando os nossos sentidos e a nossa imaginação e a nossa consciência e o nosso próprio inconsciente terão sintonia plena, não com os valores da propaganda, mas com os autênticos valores de Deus?

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