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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

UM OLHAR SOBRE A CIDADE: A FELICIDADE DECRETADA



Quarta-feira, 16.1.1980

Meus queridos amigos


Por ocasião do Natal, o prefeito da cidade do Recife distribuiu um cartão, com estes dizeres:
“Com verdes ramos, no Arruda,
Flores, na Várzea,
Esperança, nos Aflitos,
Consolo, na Soledade,
Perdao, na Madalena,
Louvores, na Glória,
Decisao, na Encruzilhada,
Confiança, na Amizade,
Cânticos, na Harmonia,
E Fé, no Cordeiro,
Decrete-se a felicidade
E a Deus querer, se cumpra,
Pois é Natal no Recife,
Nas ruas, na gente e nos bairros.”
Claro que Mensagem de Natal deve ser de esperança, de amor e de paz. Só que a nossa esperança não pode ser enganosa. Dentro da
área do Recife, mesmo sem chegar ao Grande Recife, nem tudo são flores, verdes ramos, perdão, consolo, esperança, cânticos, confiança, decisão, fé, crença e cânticos! Nem tudo é felicidade!
Claro que a Prefeitura conta com uma equipe de jovens secretários, que se mostram desejosos de fazer o possível, mesmo que seja pouco, uma gota d’água, mas todo possível para o bem do povo.
Mas as cidades sofrem sempre mais as consequências da falta das reformas de base, indispensáveis ao bem estar do nosso povo.
Enquanto o Estatuto da Terra for lembrança incômoda, enquanto falar em Reforma Agrária for tido pelo Ministério da Agricultura como assunto para economista desocupado, enquanto a palavra de ordem for produzir, produzir, produzir, não para que o povo tenha com o que se alimentar, mas para abastecer os supermercados daqui e, sobretudo, do estrangeiro; enquanto o povo for expulso de suas terras como se fosse gado e o gado tomar o lugar dos agricultores, as cidades serão invadidas por levas sempre maiores.
E as favelas serão inevitáveis. E a derrubada de barracos continuará.
E o povo será varrido para cada vez mais longe. Ah se os governantes pudessem mesmo decretar a felicidade! Mas cada vez
mais as multinacionais são as donas do mundo, são mais poderosas do que os Estados mais fortes e riem dos decretos de felicidade firmados pelos governantes.

A saudação do prefeito lembra-se de Deus — a Deus querer! Claro que Deus quer. Mas ele respeita a liberdade humana. E o homem, na linha do egoísmo, continua ainda tão primário!

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