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domingo, 14 de maio de 2017

UM OLHAR SOBRE A CIDADE: MÃES DA PRAÇA DE MAIO



Sexta-feira, 8.4.1983

Meus queridos amigos

Já ouviram falar, com certeza, nas Mães da Praça de Maio. Praça de Maio é uma praça de Buenos Aires, que se tornou célebre no mundo, porque mães argentinas, cujos filhos foram sequestrados e desapareceram para sempre, reuniram-se nesta praça para exigir que os filhos lhes fossem restituídos, vivos ou mortos. É terrível ver o tempo passar e ter um ente amado desaparecido, sem nem sequer saber se ele está vivo ou morto.

As Mães da Praça de Maio, depois de corajosamente reclamarem seus filhos em Buenos Aires, saíram pelo mundo, na esperança de que a repercussão mundial de sequestros tão cruéis, obrigasse os responsáveis a falar, a dar enfim alguma informação. Circularam pelas grandes capitais do mundo. Foram recebidas pelo Papa João Paulo II. Foram recebidas pelas Nações Unidas e ganharam o Prêmio Nobel da Paz.

As Mães da Praça de Maio vão publicar um livro de poemas, nascidos da dor e do desespero de várias das corajosas mães de filhos desaparecidos. Pediram-me que escrevesse um prefácio para o livro.

Disse assim: “Parecia impossível acrescer uma grandeza qualquer ao título de mãe. E, no entanto, as Mães da Praça do Maio conseguiram iluminar ainda mais a realidade divina da maternidade.”

(E nesta altura do prefácio, faço alusão a uma escultura que é uma das riquezas do Museu do Louvre, a Pietá, de um escultor anônimo, que apresenta Nossa Senhora com Jesus Morto entre os braços. É conhecida como Piedade de Avinhão, pois foi na cidade francesa de Avinhão que ela surgiu). Digo, então, no prefácio:

“A Pieta de Avignon, uma das riquezas do Museu do Louvre, imortalizou a dor da mãe, que recebe, sobre seus joelhos, um filho morto, sobretudo, porque o filho morto é o Homem-Deus, e a mãe, esmagada de dor, é a Mae do Cristo, que Ele desejou partilhar com todas as criaturas humanas. Precisamos de um outro genial anônimo para criar uma pintura ou uma escultura traduzindo a dor de uma mãe, de filho desaparecido, sem que ela saiba sequer se ele está vivo ou morto e, na hipótese de estar morto, sem que lhe reste o consolo de recebe-lo em seus braços, sobre os seus joelhos...

As Mães da Praça de Maio despertaram a atenção do mundo inteiro para a ignominia de negar as mães a triste e comovida alegria de acalentar, por uma última vez, o corpo querido, formado no seu seio materno, com a colaboração de um pai terreno e a intervenção direta do Criador e Pai, que para cada vida humana tem a fineza de criar uma alma espiritual e imortal, sob medida. As Mães da Praça de Maio afrontam sacrifícios, ameaças, incompreensões, insultos, prisões, para ajudar a despertar a consciência humana para a maldita obra-prima da crueldade, da qual elas são vítimas...

A Terra lhes ofereceu o Prêmio Nobel da Paz. O céu — o Senhor — certamente guarda para elas o premio incorporável para mães: de reencontrar para sempre seus filhos e de guardá-los na plena alegria do Pai Celeste.”

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